A centelha de Mahasweta: como a palavra se faz corpo, resistência e pergunta íntima
No centenário da escritora indiana, o seu legado de ativismo pela linguagem ecoa em debates contemporâneos sobre identidade, sexo e o direito de nomear a própria experiência.
No início dos anos 1980, um condutor de riquexó em Calcutá perguntou a uma passageira de sari e óculos o significado de jijivisha — a vontade tenaz de viver. A senhora, professora universitária, incentivou-o a escrever para a revista operária que editava e, antes de sair, rabiscou a morada num papel: Mahasweta Devi. O homem era Manoranjan Byapari, mais tarde um dos escritores dalit mais celebrados de Bengala. O gesto condensa o que Mahasweta (1926-2016) entendeu como prática literária: a escrita não como assinatura de um ego, mas como relação, como espaço onde as personagens têm o direito de sonhar os próprios caminhos — mukti, chamava-lhe ela.
A efeméride dos cem anos do seu nascimento, assinalada em janeiro, reaviva uma obra de mais de cem livros e 350 contos, mas sobretudo uma forma de estar na linguagem que continua a interpelar. Para a comunidade Kheria Sabar, em Purulia, Mahasweta foi Maa, a mãe que enfrentou burocracias e polícias depois da morte sob tortura de Budhan Sabar, em 1998. A sua casa de dois quartos, hoje Mahasweta Bhawan, guarda a cama, os livros e as fotografias. Prasanta Rakshit, que a acompanhou durante quatro décadas, recorda: “Ela nunca pediu um favor para si própria. Por isso nunca teve problemas em exigir os direitos dos outros.” A escrita era, assim, uma extensão da sua prática política, mas também uma intimidade feroz com a língua — “escrever tornou-se o meu mundo real”, dizia.
Essa intimidade com a palavra ecoa, noutro quadrante, no debate sobre a feminização dos nomes. Uma professora universitária francófona, eleita em 2011, recorda como resistia a ser chamada “autrice”, convencida de que o masculino era o neutro. “Achava que ‘autrice’ era feio, que me arranhava os ouvidos”, confessa, para logo reconhecer que o incómodo nascia apenas da falta de hábito. A historiadora Hélène Carrère d’Encausse, secretária perpétua da Academia Francesa, insistia em ser tratada no masculino — “Le secrétaire perpétuel” —, num exemplo do que a docente descreve como apropriação de um sistema sem compreensão da sua historicidade. A resistência à forma feminina, nota, é um reflexo inconsciente da primeira socialização linguística.
A tensão entre o dado biológico e a construção social atravessa também a antropologia contemporânea. A presidente da Associação Americana de Antropologia, Carolyn M. Rouse, afirmou em entrevista que “a ideia de que existem dois sexos é factualmente incorreta” e que basta uma pesquisa no Google para verificar que há “diferentes tipos de ‘sexos’ e ‘géneros’”. Perante a perplexidade da entrevistadora — que lembrou que 42,4% dos antropólogos forenses inquiridos em 2022 consideram o sexo binário —, Rouse respondeu não acreditar em sondagens e sugeriu que muitos desses profissionais “não têm formação avançada”. A declaração gerou desconforto entre académicos que veem na recusa em compreender a posição alheia uma forma de incuriosidade incompatível com o ofício antropológico.
A pergunta sobre o que é excessivo ou legítimo na experiência do corpo também se coloca na esfera íntima. Uma leitora de 50 anos escreveu a um colunista do Washington Post angustiada com a quantidade de sexo na sua vida depois do divórcio. A resposta — “não existe quantidade excessiva de sexo” — veio acompanhada de um aviso: é preciso parar quando os pensamentos se tornam intrusivos ou perturbam outras esferas, e redobrar o cuidado com a saúde. A inquietação da leitora ecoa, de forma inesperada, o território que Mahasweta Devi palmilhou ao transformar o seio materno em ferramenta de trabalho e metáfora da exploração no conto “A Ama de Leite” (Stonodayini). Aí, Jashoda, uma brâmane pobre, aluga o corpo para amamentar os filhos de uma família rica, engravidando repetidamente para manter o leite, até morrer de cancro da mama, abandonada pelos seus. A palavra, quando se faz corpo, deixa de ser apenas literatura.
| Imprensa indiana e sul-asiática | +1.00 | aligned |
|---|---|---|
| Imprensa europeia continental | 0.00 | neutral |
| Imprensa atlântica / anglosfera | −0.80 | critical |
| Imprensa russa e CEI | +0.20 | neutral |
Mahasweta Devi opened the world with her words, giving voice to the marginalized and fighting for their freedom.
By recounting the rickshaw encounter and her legacy, an image of a literary heroine and activist is built, making her story exemplary.
The controversial dimension of naming battles (such as the debate on inclusive writing and the definition of sex) is absent, which reinforces the harmonious image of Devi's legacy.
The author overcame initial resistance and now accepts 'autrice', recognizing the value of feminization.
By narrating the personal journey, the linguistic change is normalized as a natural evolution.
The broader context of naming struggles, such as Mahasweta Devi's fight for Adivasi rights and the debate on binary sex, is absent, which reduces the political scope of the theme.
The AAA president does not understand the position she dismisses, and her ignorance threatens science.
Using an accusatory tone and scientific authority, the opponent is delegitimized as incompetent.
The personal and literary perspective of naming life, as in the example of Mahasweta Devi and the feminization of language, is omitted, which polarizes the debate without nuance.
The woman should not worry about the amount of sex; what matters is health and happiness.
By reassuring with authority, social anxiety is reduced and the problem is individualized.
The political and cultural dimensions of naming, such as Mahasweta Devi's activism and inclusive writing, are absent, which individualizes the sexual issue.
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