
Volkswagen aliena maioria da Everllence e encaixa 7,4 mil milhões para a transição
A transação com a Bain Capital, que mantém 49% do capital, insere-se numa vaga de desinvestimentos e cortes de pessoal que percorre a indústria automóvel europeia.
A Volkswagen anunciou a venda de 51% da Everllence, fabricante de motores de grande porte, ao investidor financeiro norte-americano Bain Capital, num negócio que avalia a empresa em mais de 8 mil milhões de euros e gera um encaixe imediato de 7,4 mil milhões. A operação, que mantém o grupo de Wolfsburg com uma participação de 49%, surge num momento de profunda reestruturação do setor, pressionado pela transição energética e pela concorrência chinesa.
A venda enquadra-se numa estratégia de concentração no negócio principal e de obtenção de liquidez para financiar a transformação elétrica e digital. Observadores em Frankfurt notam que a transação segue uma tendência de desinvestimentos em ativos não estratégicos: a Mercedes alienou participações na Daimler Truck, a ZF Friedrichshafen vendeu a divisão de assistência à condução e a Continental focou-se nos pneus. Em Paris, a Renault anunciou uma reorganização da engenharia que prevê a supressão de 800 postos de trabalho até 2027, justificada pela necessidade de encurtar ciclos de desenvolvimento face aos fabricantes chineses, que lançam novos modelos em metade do tempo.
A Everllence, antiga MAN Energy Solutions, emprega 16 mil pessoas e produz motores para navios, centrais elétricas e bombas de calor de grande escala. O acordo com a Bain garante a manutenção das cinco fábricas alemãs e exclui despedimentos até 2030. A escolha do investidor, cuja oferta foi a mais baixa entre três concorrentes, terá pesado a disponibilidade para assumir riscos de responsabilidade civil relacionados com valores de consumo inflacionados em motores navais, sob investigação no Japão desde 2024. A estrutura acionista da Volkswagen gerou, porém, desconforto: seis membros do conselho de supervisão abstiveram-se na votação por integrarem um consórcio rival que incluía a Porsche SE e o Qatar, o que, segundo analistas em Wolfsburg, expõe a falta de independentes no órgão de controlo.
A conclusão da venda depende de autorizações regulatórias e da consulta aos trabalhadores em França, prevendo-se o fecho até ao final de 2026. O encaixe reforça a capacidade financeira do grupo, que já acordou 28 mil saídas voluntárias e planeia reduzir 50 mil efetivos até 2030. O mercado aguarda agora eventuais movimentos semelhantes noutras participadas, como a PowerCo (baterias) ou a Moia (mobilidade), enquanto a indústria europeia prossegue o ajustamento a um ambiente de menor procura e maior pressão competitiva.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A venda da maioria da Everllence à Bain Capital por 7,4 mil milhões de euros é apresentada como um passo pragmático para financiar a dispendiosa transição elétrica da Volkswagen. Contudo, existe ceticismo quanto à entrega de um ativo industrial com 900 trabalhadores a um fundo de private equity, receando que a lógica financeira se sobreponha à estratégia industrial. O negócio é visto como um compromisso necessário, mas com um sabor amargo.
A imprensa anglo-saxónica enquadra a venda da Everllence como um desinvestimento forçado para obter liquidez, realçando as dificuldades da Volkswagen em financiar a transição elétrica sem alienar ativos não estratégicos. A entrada da Bain Capital é recebida com o ceticismo habitual em relação ao private equity, sublinhando os riscos para o emprego e o futuro industrial da marca. O negócio é visto como um barómetro da pressão financeira sobre os construtores europeus.
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