
Bélgica elimina EUA em meio a crise de credibilidade da FIFA após intervenção de Trump
A goleada belga por 4 a 1 encerrou a campanha americana, mas o legado do jogo é a decisão inédita de suspender a expulsão de Balogun a pedido do presidente dos EUA.
A Bélgica não tomou conhecimento do anfitrião e despachou os Estados Unidos por 4 a 1 nas oitavas de final, em Seattle, encerrando o sonho americano na Copa do Mundo de 2026. O resultado em campo, contudo, foi ofuscado por uma crise de governança que já mobiliza parlamentos e organismos internacionais. Em causa está a decisão, sem precedentes na história moderna dos Mundiais, de suspender a suspensão automática do atacante Folarin Balogun, expulso na vitória sobre a Bósnia-Herzegovina, após um telefonema do presidente Donald Trump ao presidente da FIFA, Gianni Infantino.
Balogun recebeu cartão vermelho direto aos 64 minutos da partida de 1.º de julho, por uma entrada sobre o bósnio Tarik Muharemovic. A regra determinava que o artilheiro americano cumprisse um jogo de suspensão. No entanto, Trump classificou a expulsão como “uma grande injustiça” e pediu a Infantino que revisse o caso. Dias depois, a Comissão Disciplinar da FIFA anunciou a suspensão da pena por um ano, citando o artigo 27 do Código Disciplinar, e Balogun foi escalado como titular contra a Bélgica. A federação belga protestou formalmente, mas a FIFA rejeitou o recurso.
A reação europeia foi imediata e contundente. A UEFA classificou a medida como “incompreensível” e afirmou que a FIFA “cruzou uma linha vermelha”. Setenta e dois deputados do Parlamento Europeu, liderados por Barry Andrews, Lara Wolters e Niels Fuglsang, enviaram uma carta às 27 federações da União Europeia pedindo uma investigação sobre o processo decisório e uma eventual interferência política. “Alterar a regra de suspensão por cartão vermelho no meio de um torneio é uma vergonha e uma perversão da justiça”, declararam. A organização de direitos humanos FairSquare, com sede em Londres, anunciou que apresentará uma queixa formal à Comissão de Ética do Comité Olímpico Internacional (COI) contra Infantino, por “violação reiterada das regras de neutralidade política”. A presidente do COI, Kirsty Coventry, confirmou que, se recebida, a queixa será analisada.
O episódio reacendeu o escrutínio sobre a relação entre Infantino e Trump. O dirigente suíço, membro do COI desde 2020, entregou ao presidente americano o recém-criado Prémio da Paz da FIFA durante o sorteio do Mundial, em dezembro passado, e tem sido presença frequente na Casa Branca. A Federação Norueguesa de Futebol já havia apoiado uma queixa ética anterior, e a FairSquare sustenta que não há indícios de que o Comité de Ética da FIFA tenha aberto qualquer investigação. Na perspetiva de analistas em Lisboa, o caso expõe a tensão entre a autonomia regulatória do desporto e a influência política das potências anfitriãs, ecoando episódios históricos como a Copa de 1934, na Itália fascista, ou o Mundial de 1978, sob a ditadura argentina.
Enquanto a controvérsia se desloca para os corredores do COI e do Parlamento Europeu, a FIFA contabiliza receitas recorde de quase 9 mil milhões de dólares com o torneio. Para nações lusófonas como Cabo Verde, que já arrecadou mais de 21 milhões de dólares pela sua campanha histórica — cerca de 0,75% do PIB —, os fundos distribuídos pela entidade são vitais. Infantino, que buscará a reeleição em 2027 no congresso de Rabat, nega ter interferido na decisão final, mas o precedente aberto pelo caso Balogun já é descrito pela vice-presidente da UEFA, Laura McAllister, como “um pântano completo”, em que qualquer líder político pode agora telefonar para tentar reverter uma punição disciplinar.
| Imprensa atlântica / anglosfera | −0.80 | critical |
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| Imprensa latino-americana | −0.40 | critical |
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O bloco atlântico denuncia a interferência de Trump e exige investigações independentes para salvar a credibilidade do futebol mundial.
Ao transformar um incidente esportivo em um caso judicial e político, legitima as demandas por sanções e reformas.
A América Latina se divide entre aqueles que acusam a FIFA de corrupção e aqueles que defendem a ação de Trump como necessária para a justiça esportiva.
Ao apresentar vozes opostas sem resolvê-las, cria-se uma tensão narrativa que reflete as divisões reais na região.
Omite a discussão detalhada dos procedimentos disciplinares independentes da FIFA, concentrando-se em vez disso nas reações políticas.
O bloco do Golfo apresenta o assunto como uma questão de cumprimento de regras, não de escândalo político.
Ao reduzir a complexidade a um problema de conformidade regulatória, evita tomar uma posição sobre as implicações políticas.
Omite as reações emocionais e as críticas públicas presentes em outros blocos, concentrando-se apenas no procedimento formal.
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