
Um lapso de 1889 e o regresso de Moretti ao Lido
Na conferência de imprensa que revelou a seleção da 83.ª Mostra de Veneza, um deslize do diretor artístico Alberto Barbera transformou-se no prenúncio de um reencontro há muito adiado.
A sala riu quando Alberto Barbera se corrigiu. O diretor artístico da Mostra de Veneza acabara de afirmar que Nanni Moretti não pisava o Lido desde “1889”, um século antes do ano real, 1989, em que “Palombella rossa” foi exibido fora de competição. O lapso, rapidamente emendado entre sorrisos, condensou a sensação de que o regresso do cineasta romano à competição oficial — 37 anos depois de “A missa acabou” — pertence a uma outra era do cinema italiano. Na mesma manhã, um excerto de “Succederà questa notte” mostrou Louis Garrel a correr numa quadra de basquetebol, braços erguidos em triunfo, numa imagem que evoca o inconfundível Michele Apicella dos primeiros filmes de Moretti. O gesto, captado pela imprensa italiana, funcionou como uma assinatura visual: o autor volta ao festival que o consagrou, mas de onde se afastara há décadas.
A seleção anunciada a 23 de julho para a edição que decorre entre 2 e 12 de setembro de 2026 confirma um certame menos dependente dos grandes estúdios de Hollywood, tendência já observada em Cannes. Entre os vinte títulos que disputam o Leão de Ouro, cinco são italianos, incluindo “Il fuoco che ti porti dentro”, de Edoardo De Angelis, e “Ritorno a Buenos Aires”, de Marco Bechis, uma coprodução ítalo-brasileira que devolve o Brasil à corrida principal depois de “Ainda Estou Aqui” ter vencido o prémio de melhor argumento em 2024. Rodado parcialmente em Porto Alegre e com os atores brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy no elenco, o filme acompanha um homem que regressa à Argentina para testemunhar contra os militares que o sequestraram durante a ditadura. A obra ecoa, para o público lusófono, uma memória partilhada de violência de Estado que ultrapassa fronteiras.
Fora de competição, a programação aposta em documentários que funcionam como ímanes de atenção. “Oasis: Don’t Look Back in Anger”, realizado por Dylan Southern e Will Lovelace a partir de uma ideia de Steven Knight, documenta a digressão de reencontro dos irmãos Gallagher e trará Liam e Noel ao tapete vermelho, segundo garantiu Barbera. Já “Musk”, de Alex Gibney, propõe um retrato de quase quatro horas do bilionário Elon Musk, enquanto “Be Brave”, de Francesco Carrozzini, surge como a primeira longa-metragem documental italiana inteiramente trabalhada com inteligência artificial, centrada no fundador da Diesel, Renzo Rosso. A estes junta-se “Joie de Vivre”, de Luca Guadagnino, um ensaio de sete horas sobre Bernardo Bertolucci que testa os limites da resistência cinéfila.
A ausência de “Digger”, o filme de Alejandro González Iñárritu com Tom Cruise que muitos esperavam ver no Lido, sublinha o recuo das grandes máquinas de estúdio, mas não esvazia o desfile de estrelas. Robert Pattinson encarna o jornalista Chris Hansen em “Primetime”, Penélope Cruz e Javier Bardem partilham o ecrã em “Bunker”, de Florian Zeller, e Werner Herzog dirige as irmãs Rooney e Kate Mara em “Bucking Fastard”. O júri é presidido por Maggie Gyllenhaal, que também apresenta a curta “Flesh Impact”, com Dakota Johnson e Ellen Burstyn — esta última distinguida com um Leão de Ouro de carreira, a par de George Clooney. Para o Brasil, a presença em competição com uma história ambientada na Argentina da Copa do Mundo de 1978 é lida por observadores culturais como um sinal de que o cinema do país continua a encontrar no circuito europeu um espaço de ressonância para as suas feridas históricas.
No final da conferência, a imagem que perdura é a do corpo de Louis Garrel a festejar um ponto no basquetebol, como se o próprio Moretti, através de um duplo, reivindicasse o seu lugar no festival. O gesto não é apenas uma citação: é a promessa de um cineasta que, depois de quase quatro décadas de afastamento, volta a jogar em casa.
| Imprensa europeia continental | +0.30 | aligned |
|---|---|---|
| Imprensa latino-americana | +0.50 | aligned |
| Imprensa atlântica / anglosfera | 0.00 | neutral |
| Imprensa russa e CEI | −0.30 | critical |
A Itália celebra o retorno de Nanni Moretti e a força do cinema nacional, mas não esconde uma pitada de decepção pela ausência de Hollywood.
Ao enfatizar o retorno histórico de Moretti e o número de filmes italianos, cria-se uma imagem de sucesso nacional, enquanto a crítica à falta de estrelas de Hollywood é apresentada como uma observação objetiva.
Não menciona a controvérsia sobre o filme russo 'Дау' nem a coprodução brasileira, que são centrais em outros blocos.
O Brasil celebra sua coprodução como um marco, destacando a crescente influência do país no cinema mundial.
Ao focar exclusivamente nos elementos brasileiros do filme e omitir o contexto mais amplo do festival, a narrativa cria um senso de realização nacional.
Deixa de lado o foco italiano no retorno de Moretti e a controvérsia russa, que são centrais em outros blocos.
O festival oferece uma seleção diversificada de filmes estrelados e documentários, prometendo entusiasmo para a temporada de premiações.
Ao destacar os elementos mais comercialmente atraentes (documentário sobre Musk, comédia de McDonagh) e evitar qualquer enquadramento nacional ou político, a narrativa posiciona o festival como um evento de entretenimento global.
Omite as narrativas de orgulho nacional da Itália e do Brasil, bem como a controvérsia política russa, concentrando-se em vez disso no apelo universal.
A Rússia adverte que o festival está legitimando um agente estrangeiro, minando sua credibilidade cultural.
Ao aplicar imediatamente o rótulo oficial de 'agente estrangeiro' ao diretor, a narrativa deslegitima a inclusão do filme e enquadra o festival como politicamente suspeito.
Omite a celebração do cinema italiano e a coprodução brasileira, concentrando-se exclusivamente no filme russo como uma questão política.
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