
Trump ameaça tarifa sobre alface mexicana após surto de ciclosporíase nos EUA
Presidente dos EUA condiciona comércio a investigação sanitária, enquanto México contesta laudo que apontava contaminação e setor agrícola alerta para cortes orçamentários na vigilância.
A declaração do presidente Donald Trump, de que os Estados Unidos poderiam impor uma “grande tarifa” ao México por causa da alface supostamente contaminada, introduz uma nova variável comercial num momento de tensão nas relações bilaterais. A ameaça, feita em tom jocoso a jornalistas no Salão Oval, surge após os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) associarem um surto de ciclosporíase — com 1.947 casos confirmados e até 11.573 possíveis em nove estados — ao consumo de alface americana picada em restaurantes Taco Bell. O episódio ocorre na mesma semana em que a Casa Branca já anunciara tarifas de 50% sobre produtos canadenses, numa escalada que observadores em Washington interpretam como uso de instrumentos comerciais para pressionar parceiros em áreas não estritamente econômicas.
A investigação nos EUA teve reviravoltas. A FDA inicialmente apontou a presença do parasita Cyclospora cayetanensis em amostras de alface iceberg da empresa Taylor Farms, cultivada em Guanajuato, México. Posteriormente, a agência admitiu que o resultado fora um falso positivo e pediu desculpas ao fornecedor. Contudo, manteve a hipótese de que a alface mexicana, pela rastreabilidade, continua sendo o veículo provável. Paralelamente, autoridades sanitárias mexicanas — incluindo a Cofepris e o Senasica — analisaram dez amostras de matéria-prima e produto acabado da mesma planta, além de amostras de água. Todos os exames deram negativo para Cyclospora e coliformes fecais, o que a presidente Claudia Sheinbaum classificou como evidência de que não há, até o momento, comprovação de contaminação de origem mexicana. A própria FDA reconhece que nenhuma amostra positiva foi confirmada em laboratório.
Na Cidade do México, a resposta de Sheinbaum sublinhou a realização de um estudo epidemiológico próprio e o compromisso de divulgar os resultados assim que disponíveis. A declaração busca conter danos a um setor que exporta 97% das 153 mil toneladas anuais de alface para os EUA, com forte presença de produtores em Guanajuato, Zacatecas e Sonora. O Grupo Consultor de Mercados Agrícolas (GCMA) aproveitou o caso para alertar sobre a redução de 26% no orçamento do Senasica entre 2018 e 2026, o que, na sua avaliação, compromete a capacidade de vigilância e resposta rápida. “A sanidade e a inocuidade devem ser consideradas assunto de segurança nacional”, afirmou a entidade, que vê na coordenação binacional, baseada em evidências científicas, o caminho para evitar prejuízos injustificados a exportadores.
Além da alface, Trump mencionou a possibilidade de tarifar também o Canadá devido à fumaça de incêndios florestais que atinge o território americano. A retórica, embora apresentada com risos, alinha-se a um padrão de uso de sanções comerciais como ferramenta de pressão, a exemplo das tarifas de 50% sobre produtos canadenses anunciadas na véspera. Para o México, o próximo marco será a conclusão do estudo epidemiológico encomendado por Sheinbaum, que poderá influenciar a reavaliação da FDA e, no plano diplomático, a continuidade das revisões do T-MEC. Enquanto isso, autoridades estaduais nos EUA investigam fontes alternativas, como coentro e salsa, o que mantém em aberto a cadeia de causalidade do surto.
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