
Tráfego no Estreito de Ormuz atinge máximo desde o início da guerra, mas Irão reivindica controlo permanente
Após o memorando EUA-Irão, o fluxo diário de navios subiu para um terço do nível pré-conflito, enquanto Teerão insiste que a gestão da via marítima 'nunca mais será a mesma' e exige registo das embarcações.
Pelo menos 35 navios de transporte de matérias-primas atravessaram o Estreito de Ormuz na segunda-feira, o número diário mais elevado desde que a guerra no Médio Oriente eclodiu no final de fevereiro, segundo dados da plataforma de análise marítima Kpler. O valor representa cerca de um terço da média de 120 travessias diárias registada em tempos de paz. O aumento segue-se à assinatura, a 17 de junho, de um memorando de entendimento entre Washington e Teerão que prevê um cessar-fogo de 60 dias e o compromisso iraniano de facilitar a passagem segura de navios comerciais sem cobrança de taxas durante esse período. Contudo, o tráfego permanece condicionado pela existência de minas no canal central de navegação, por interferências de GPS — que diminuíram nos últimos dias — e pela incerteza quanto às novas exigências impostas pelo Irão.
A administração do estreito constitui o ponto mais controverso das negociações em curso. O negociador-chefe iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que “a gestão do Estreito de Ormuz nunca mais será a mesma de antes da guerra” e que caberá ao Irão administrar a via marítima. A Autoridade Iraniana do Estreito do Golfo Pérsico (PGSA, na sigla inglesa) passou a exigir uma licença de passagem para todas as embarcações. O embaixador do Irão junto da ONU em Genebra clarificou que o estreito está “completamente aberto” ao tráfego comercial e que não haverá portagens durante 60 dias, mas que as disposições futuras serão discutidas com Omã. Do lado norte-americano, o Presidente Donald Trump celebrou na rede Truth Social a queda dos preços do petróleo e a retoma dos fluxos, ao mesmo tempo que sugeriu que Washington poderia impor taxas caso não se alcance um acordo definitivo. Os EUA levantaram o bloqueio naval e suspenderam temporariamente sanções ao petróleo iraniano até 21 de agosto, mas mantêm sanções sobre a própria PGSA, o que, segundo analistas europeus, desincentiva os armadores a solicitar as novas licenças.
As implicações para o comércio global e para países específicos tornam-se mais nítidas. A Índia informou que 11 navios com destino ao seu território, incluindo petroleiros com crude e graneleiros com fertilizantes, transpuseram o estreito desde a assinatura do memorando, permanecendo ainda dez navios de bandeira indiana no Golfo Pérsico. A Organização Marítima Internacional, agência da ONU, lançou uma operação de “larga escala” para retirar mais de 11 mil marinheiros retidos na região, em coordenação com Irão, Omã, EUA e a indústria naval. Especialistas em direito marítimo, sobretudo na Europa, sublinham que a imposição unilateral de portagens violaria a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que consagra a passagem em trânsito livre — embora o Irão tenha assinado mas não ratificado o tratado. O canal central de navegação continua encerrado devido a minas, e o Centro Conjunto de Informação Marítima, que integra os EUA, mantém alertas ativos.
O conflito, iniciado em finais de fevereiro, demonstrou a capacidade de Teerão de paralisar o estreito sem uma frota convencional: bastaram ataques seletivos com drones e embarcações ligeiras para tornar a rota comercialmente inassegurável, colapsando as coberturas de seguro e forçando os armadores a suspender os trânsitos. Agora, as negociações prosseguem na Suíça, com a criação de grupos de trabalho sobre levantamento de sanções, questões nucleares, indemnizações e verificação. Diplomatas em Brasília e Lisboa acompanham o período de 60 dias como uma janela limitada para restabelecer cadeias de abastecimento energético que são críticas para economias como a brasileira, importadora de fertilizantes e derivados de petróleo através do Golfo. O desfecho das conversações sobre a administração permanente do estreito, que envolverá Omã e outros Estados do Golfo, determinará se a atual normalização parcial se consolida ou se uma nova linha de fratura geopolítica se fixa num dos pontos de estrangulamento mais vitais do comércio mundial.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
2 grupos editoriais · 6 idiomas
O Irã transformou o Estreito de Ormuz em uma arma geopolítica, usando o controle da passagem como moeda de troca. Embora o memorando de entendimento tenha reaberto o tráfego e derrubado os preços do petróleo, a manobra de Teerã revela uma estratégia de longo prazo para afirmar sua hegemonia regional.
Para a Índia, a reabertura do Estreito de Ormuz tem um benefício concreto: onze navios com destino à Índia já cruzaram a passagem desde o acordo Irã-EUA. Nova Délhi monitora a situação com pragmatismo, concentrando-se na segurança de seus suprimentos energéticos e dos dez navios de bandeira indiana ainda no Golfo.
Artigos relacionados
Suíça vence Canadá e assume liderança do Grupo B; ambos avançam
8 idiomas · 31 veículos
Geopolítica & PolíticaTrump acusa aliados de omissão na guerra com o Irão; Rutte tenta conter crise na NATO
7 idiomas · 14 veículos
EsporteBósnia vence Qatar por 3-1 e fica perto das oitavas de final inéditas
5 idiomas · 19 veículos