
Toy Story 5 estreia entre vozes latinas, ironia nórdica e um improviso australiano
O novo capítulo da saga da Pixar chega aos cinemas com uma peluche da AFL, dobragem de Belinda no México e uma reflexão madura sobre ecrãs que, segundo os seus criadores, não escapa à hipocrisia de um estúdio tecnológico.
Na véspera da estreia mundial, Toy Story 5 já não se resume a um reencontro com Woody e Buzz: é um objeto cultural que acumula camadas de significado à medida que atravessa fronteiras. O quinto filme da franquia, que em várias geografias chega às salas esta quinta-feira, coloca os brinquedos a enfrentar a concorrência de iPads e outras distrações digitais — uma premissa que o realizador Andrew Stanton e a produtora Lindsey Collins, em entrevista na Escandinávia, admitem carregar uma ironia difícil de ignorar. “Somos uma empresa de tecnologia, vemos a ironia”, confessou Collins, sublinhando que a crítica aos gigantes do digital parte precisamente de dentro de um deles.
O humor involuntário da situação não impediu que o filme gerasse momentos de pura espontaneidade noutras latitudes. Na Austrália, o apresentador televisivo Matt Shirvington aproveitou uma entrevista com Tom Hanks e Tim Allen para lhes apresentar Sherry, uma bola de futebol australiano com braços, rosto plástico e cabelo preto, desenhada como possível personagem de um hipotético Toy Story 6. Hanks, que conhece bem o país, mostrou-se encantado: “Gosto, gosto muito”. A ocorrência, partilhada nas redes sociais, recorda que a franquia nunca deixou de ser permeável à cultura popular local, mesmo quando os holofotes se viram para discussões mais graves sobre a atenção infantil.
Do outro lado do Pacífico, a estreia na Cidade do México trouxe um colorido latino-americano que reforça a universalidade da saga. A cantora Belinda emprestou a voz a Lily Pad e descreveu a experiência como “um sonho tornado realidade”, apelando a que o público não perca a criança interior. A dobragem mexicana, com Irán Castillo no papel de Jessie, é apenas uma das muitas portas de entrada para os países lusófonos, onde o público poderá rever todos os capítulos anteriores numa única plataforma de streaming — a Disney+ consolida-se assim como a guardiã digital da memória afetiva de pelo menos três gerações.
É justamente a carga afetiva que o quinto filme explora com mais maturidade, regressando ao abandono de Jessie, a cowgirl que Joan Cusack vem dobrando desde 1999. Em declarações recolhidas pela imprensa indiana, a atriz descreveu a evolução da personagem como um “emblema de amor e cuidado”, agora mais atenta às necessidades flutuantes de Bonnie, uma miúda de oito anos. A narrativa, observam analistas europeus, distancia-se da simples aventura para se tornar uma meditação sobre o envelhecimento e a substituição, um tema que ecoa tanto em Lisboa como em São Paulo, onde as infâncias estão cada vez mais mediadas por ecrãs.
Passados trinta anos do primeiro Toy Story, a franquia mantém-se como um espelho das ansiedades contemporâneas, equilibrando a nostalgia com uma crítica autoconsciente à economia da atenção. Se o improviso australiano de Shirvington prova que a imaginação ainda encontra brechas no império digital, a ironia escandinava lembra que ninguém está imune à contradição. Para as plateias lusófonas, o filme promete não apenas uma despedida temporária dos brinquedos de Andy, mas também um pretexto para discutir, entre pais e filhos, quem serve quem no reino dos ecrãs.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Um apresentador australiano sugeriu a Tom Hanks e Tim Allen uma nova personagem para Toy Story: uma bola de futebol australiano chamada Sherry, com braços minúsculos e rosto de plástico. As estrelas de Hollywood adoraram a ideia de imediato, abrindo caminho para um brinquedo inspirado no futebol australiano numa futura sequela.
A cobertura escandinava nota que Toy Story 5 está mais gentil do que nunca, ao mesmo tempo que brinca com a indústria da tecnologia. Os realizadores admitem a ironia de um filme da Disney-Pixar, ele próprio um gigante tecnológico, contar uma história de brinquedos que perdem para iPads e ecrãs, e riem-se da contradição.
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