
Revisão do T-MEC expõe fragilidade trilateral e avança em conversas bilaterais
Segunda ronda entre México e EUA decorre em Washington com agricultura e energia na mesa, enquanto o Canadá negoceia à margem e Trump mantém a ameaça tarifária.
A segunda ronda de conversas bilaterais entre México e Estados Unidos arrancou esta semana em Washington num ambiente de incerteza calculada. O secretário mexicano da Economia, Marcelo Ebrard, assegurou que se o presidente Donald Trump quisesse abandonar o T-MEC “já o saberíamos”, mas a ausência do Canadá do calendário oficial e as dúvidas semeadas por Trump sobre a prorrogação do pacto mantêm os mercados em alerta. A presidente Claudia Sheinbaum fixou como prioridade ratificar a vigência do tratado e reduzir as tarifas de 50% que Washington aplica ao aço, ao alumínio e aos automóveis, ao mesmo tempo que aceita reforçar as regras de origem, desde que a produção continue a ser regional.
Os temas quentes da negociação — agricultura, energia, regras de origem e setor automotriz — revelam o grau de complexidade que a Moody’s Ratings antecipa: a calificadora vê cada vez mais provável que os diferendos sejam resolvidos por acordos bilaterais ou mecanismos paralelos, sobretudo nas áreas sensíveis do aço e da energia. A resiliência mexicana, contudo, tem dados a seu favor. Um estudo do Instituto Mexicano para a Competitividade mostra que, apesar da guerra arancelária, o México se tornou em abril de 2026 o principal fornecedor dos EUA, beneficiando do acesso preferencial que as regras de origem ainda garantem. Na perspetiva de Brasília, o reposicionamento das cadeias de abastecimento norte-americanas é observado com atenção, pois qualquer desvio de investimento pode afetar os fluxos de capital que hoje também disputam o espaço sul-americano.
O Canadá, parceiro fundador da zona de livre comércio com 32 anos, vive um momento paradoxal. O ministro do Comércio, Dominic LeBlanc, reuniu-se com o representante comercial norte-americano Jamieson Greer à margem do G7 em França e sublinhou que as conversas “não são um monólogo”. Ottawa quer uma extensão de 16 anos, mas Greer já avisou que não pretende carimbar o acordo sem exigências. Observadores em Ottawa notam que, por baixo do ruído político — Trump ironizou com o “51.º estado” e o primeiro-ministro Mark Carney defendeu a diversificação comercial —, diplomatas canadianos e norte-americanos continuam a procurar um terreno comum, o que alimenta um cauteloso otimismo.
A arquitetura de poder dentro do México também está sob escrutínio. A legislação mexicana atribui a condução das negociações à Secretaria de Economia, em coordenação com as Finanças e as Relações Exteriores, mas, como recordam ex-negociadores, o presidente pode redefinir a cadeia de comando a qualquer momento. Este vazio legal, tradicionalmente preenchido pela vontade do chefe de Estado, transforma a revisão do T-MEC num teste à nova configuração do poder em torno de Sheinbaum, num momento em que a lealdade política e a estratégia comercial se confundem.
Para os países lusófonos, o desenlace desta revisão encerra lições que vão além da América do Norte. Em Lisboa, economistas sublinham que a fragmentação de um acordo trilateral em entendimentos bilaterais assimétricos pode servir de precedente para outras arquiteturas comerciais, incluindo as negociações entre o Mercosul e parceiros externos. A capacidade mexicana de preservar o acesso ao mercado norte-americano, mesmo sob pressão tarifária, é um case study de resiliência que Angola e Moçambique, empenhados em diversificar as suas exportações, acompanham com interesse redobrado. O futuro do T-MEC, mais do que uma questão regional, vai ditar parte do tom das relações comerciais globais nos próximos anos.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O México lidera as negociações de revisão do USMCA diretamente com os Estados Unidos, enquanto o Canadá fica à margem. As discussões bilaterais sobre agricultura, energia e automóveis avançam com pragmatismo, e o governo mexicano está confiante de que o acordo será preservado apesar das ameaças tarifárias de Trump.
O Canadá vê-se marginalizado na revisão do CUSMA, com negociações bilaterais entre o México e os EUA a excluí-lo. As autoridades canadianas tentam fazer valer as suas preocupações, mas alertam que a dependência dos EUA deve ser reduzida, enquanto Trump questiona todo o acordo comercial.
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