
Trump e Irão selam memorando de 14 pontos para travar guerra no Médio Oriente
Documento assinado digitalmente em Versalhes prevê cessar-fogo permanente, reabertura do Estreito de Ormuz e negociações nucleares em 60 dias, mas levanta dúvidas sobre a sua solidez.
Na noite de quarta-feira, os presidentes Donald Trump e Masoud Pezeshkian assinaram eletronicamente um memorando de entendimento de 14 pontos que declara o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano. A assinatura, confirmada pela Casa Branca e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, ocorreu durante o jantar de Trump com Emmanuel Macron no Palácio de Versalhes, antecipando a cerimónia oficial prevista para sexta-feira na Suíça. O documento, intitulado “Memorando de Islamabad”, entrou em vigor de imediato, segundo fontes americanas e o Paquistão, que mediou as conversações.
O texto, divulgado oralmente por altos funcionários norte-americanos e depois publicado na íntegra, estabelece um roteiro para desescalar o conflito iniciado a 28 de fevereiro. Além do cessar-fogo, Washington compromete-se a levantar o bloqueio naval aos portos iranianos e a desbloquear ativos congelados, enquanto Teerão se obriga a reabrir o Estreito de Ormuz sem cobrança de portagens durante 60 dias e a não desenvolver armas nucleares. Está ainda previsto um fundo de 300 mil milhões de dólares para a reconstrução económica do Irão. As questões mais espinhosas — o destino do urânio enriquecido, o alívio definitivo das sanções e o futuro programa balístico — foram remetidas para uma negociação final a concluir em, no máximo, dois meses, prorrogáveis por mútuo acordo.
A receção ao pacto é fragmentada. Em Washington, legisladores como o senador Tim Kaine criticaram o memorando por conceder “muito mais para obter muito menos” do que o acordo nuclear de 2015, rasgado por Trump no primeiro mandato. Já na Europa, o anfitrião Macron saudou o gesto como “um passo importante para a paz e para a redução dos preços da energia”, sentimento partilhado por mercados emergentes que dependem do trânsito seguro de petróleo pelo Golfo Pérsico. Observadores em Brasília e Lisboa notam que a reabertura de Ormuz alivia a pressão sobre os custos logísticos e a inflação global, mas mantêm cautela quanto à volatilidade de um entendimento provisório sustentado por ameaças: Trump avisou que “se não se comportarem, serão atingidos de novo”.
Apesar do tom triunfal do presidente americano — que classificou o acordo como “histórico” e capaz de evitar uma “catástrofe económica” —, analistas do Médio Oriente sublinham a fragilidade do texto. O memorando não resolve o estatuto das milícias aliadas de Teerão, não especifica mecanismos de verificação nuclear e deixa por definir o regime permanente de passagem pelo estreito. A diplomacia iraniana, por seu lado, insiste que o documento honra a soberania libanesa e que as conversações futuras se limitarão “exclusivamente à questão nuclear e ao levantamento de sanções”, rejeitando qualquer discussão sobre capacidades militares convencionais.
O caminho até um tratado definitivo será pavimentado por negociações técnicas que arrancam na Suíça, com a presença do vice-presidente J.D. Vance e do negociador iraniano Mohammad Baqer Qalibaf. O sucesso dependerá da capacidade de transformar um cessar-fogo frágil num quadro de segurança regional que satisfaça tanto as exigências de desnuclearização de Washington como a reivindicação de Teerão de um alívio económico tangível. Até lá, o estreito reaberto funcionará como barómetro da confiança mútua, enquanto o mundo observa se a paz temporária resiste à desconfiança estrutural entre dois adversários históricos.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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