
O regresso de The Strokes e a reinvenção cautelosa de Charli XCX, Anitta e Nia Archives
Na semana em que a música pop se despe da nostalgia e arrisca novas texturas, os álbuns de cinco artistas expõem o peso das expectativas e o prazer da desconstrução.
Era uma tarde de fashion week em Paris quando Charli XCX, esgotada pelo furacão Brat que dominou 2024, confessou sentir-se “sem inspiração para escrever algo novo”. O produtor A. G. Cook sugeriu que gravassem ali mesmo, num estúdio improvisado entre desfiles. O gesto deu origem a Music Fashion Film, sétimo álbum da britânica, cuja capa sobrepõe os rostos de Martin Scorsese, Marc Jacobs e John Cale — um altar às três artes que a moveram naquele momento de impasse criativo.
O mesmo ímpeto de testar limites ecoa em Reality Awaits, o primeiro álbum dos The Strokes em seis anos. Logo no tema de abertura, uma balada rock engolida por uma tempestade de guitarras, o quinteto nova-iorquino afasta-se tanto do cânone de Is This It como do synth-new wave do anterior The New Abnormal. A crítica francófona celebra a capacidade de renovação da banda, ainda que o autotune usado por Julian Casablancas divida os fãs. Em Lonely in the Future, soa familiar; em Falling Out of Love, estranho e arriscado — indício de que a maturidade não lhes roubou a inquietação.
Noutras latitudes, Anitta abriu a noite de quinta-feira com Equilibrivm II, continuação do projeto que a reconcilia com o samba, o forró, o reggae e o funk. O álbum reúne 17 faixas e parcerias com nomes como Maria Bethânia, Alceu Valença e MC Tha, e inclui uma versão em espanhol de Azul, de Djavan — aprovada palavra por palavra pelo veterano. Observadores em Brasília e no Rio de Janeiro notam que o disco funciona como declaração de raízes antes de uma digressão nacional, ancorando a popstar numa identidade que o sucesso internacional ameaçara diluir.
A mesma reconstrução de linguagem surge em Emotional Junglist, da compositora e DJ britânica Nia Archives, e em Late to Set, do australiano Alex Cameron. Archives converteu as bases aceleradas do jungle e do drum and bass em canções soul-pop envolventes, adicionando guitarras indie rock a um diário amoroso de 15 faixas curtas. Cameron, por sua vez, abranda o ritmo e veste-se de personagens tragicómicos — um stand-in man, um messias caído — para persiflar uma galeria de homens que perderam o lugar no mundo. Em ambos os discos, o que a imprensa europeia descreve como “risco calculado” transforma-se em rara coesão.
Resta a imagem de uma popstar exausta que encontra no frenesim da moda parisiense um novo fôlego, e de uma banda veterana que sobrepõe o título Reality Awaits a uma coleção de canções que, no fim, ainda não disseram tudo. Entre o cansaço e a teimosia, estes lançamentos partilham uma certeza paradoxal: a única forma de não se repetir é aceitar que a realidade — crítica, criativa, pessoal — espera sempre por uma nova forma de ser ouvida.
| Imprensa latino-americana | +0.10 | neutral |
|---|---|---|
| Imprensa atlântica / anglosfera | −0.20 | neutral |
The Strokes' return and Anitta's new phase show that artists can evolve without losing identity, enriching their sound with local influences.
The artistic evolution is presented as a natural and positive process, emphasizing variety and inclusivity without problematizing the choices.
It lacks the critical analysis of The Strokes' and Charli XCX's artistic choices present in the Atlantic press.
These artists challenge expectations, but not always successfully: their audacity must be evaluated critically, comparing with previous works and genre standards.
An aesthetic evaluation approach is adopted, comparing with past works and genre expectations to judge the coherence and originality of choices.
Anitta's release and her project 'Equilibrivm II' celebrating Brazilian music are not mentioned.
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