
O corpo como último argumento: a greve de fome de Sonam Wangchuk chega ao 17.º dia
Com 8,5 quilos perdidos e dores musculares intensas, o educador e ativista climático indiano recusa interromper o jejum enquanto o governo não abrir diálogo, num protesto que mobiliza figuras públicas e reacende o debate sobre a crise dos exames no país.
Sobre um colchão branco estendido num palco improvisado no observatório de Jantar Mantar, em Nova Deli, Sonam Wangchuk já não consegue falar. Aos 59 anos, o engenheiro e educador de Ladakh, conhecido por ter inspirado a personagem Phunsuk Wangdu do filme «3 Idiotas», limita-se a gesticular para os jornalistas da Reuters, demasiado fraco para articular palavras. O termómetro marca 38 graus, mas a sensação térmica roça os 46. É o 17.º dia de uma greve de fome indefinida que, segundo os boletins médicos divulgados pelo Cockroach Janta Party (CJP), já lhe consumiu 8,5 quilos, fez a glicemia descer a 67 mg/dL e a pressão arterial estabilizar em valores como 109/70 mm Hg. Na véspera, um jovem que também jejuava no local desmaiara e fora levado ao hospital.
Wangchuk não está sozinho. A sua greve insere-se no protesto mais amplo do CJP, um movimento satírico nascido nas redes sociais que, em poucas semanas, conquistou 22 milhões de seguidores no Instagram. O alvo imediato é o ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, a quem exigem a demissão na sequência do cancelamento de um exame nacional de acesso a cursos de medicina, em maio passado, após uma fuga de provas que afetou 2,3 milhões de candidatos. O fundador do CJP, Abhijeet Dipke, de 30 anos, descreve um homem em “dor imensa”, que já começou a perder massa muscular. “Supliquei-lhe que terminasse o jejum”, contou Dipke nas redes sociais. “Ele respondeu calmamente: ‘Não me peças para acabar o jejum. Pergunta ao governo porque é que se recusa a dialogar’.”
A recusa do governo em sentar-se à mesa transformou o corpo de Wangchuk num campo de batalha simbólico. Na perspetiva de Nova Deli, o silêncio oficial contrasta com a multiplicação de apelos públicos para que o ativista interrompa o protesto. Mais de 1.800 signatários — entre os quais a escritora Arundhati Roy, os atores Naseeruddin Shah e Ratna Pathak Shah, e o economista Jean Drèze — subscreveram uma carta aberta em que, apesar de apoiarem as reivindicações, pedem o fim do jejum, argumentando que “este governo não tem coração nem consciência” e que a luta é “uma maratona, não um sprint”. A veterana atriz Zeenat Aman usou o Instagram para implorar ao executivo que “não fique a ver uma das maiores mentes do país ser sacrificada”. Líderes da oposição, como Arvind Kejriwal e Akhilesh Yadav, também se pronunciaram, com Yadav a afirmar que a vida de Wangchuk “é inestimável para o mundo inteiro”.
O que confere a este protesto uma ressonância que ultrapassa as fronteiras indianas é a sua matriz geracional. O CJP define-se como representante dos “preguiçosos, dos desempregados e dos cronicamente corretos”, e a sua ascensão fulgurante ecoa frustrações de uma juventude que, segundo dados oficiais, enfrenta uma taxa de desemprego de quase 10% na faixa dos 15 aos 29 anos, valor que sobe para 13,6% nas zonas urbanas. Observadores em Lisboa notam paralelos com movimentos de indignação juvenil que, em Portugal, ganharam corpo durante a crise da troika, enquanto no Brasil a memória das manifestações de 2013 e os recorrentes escândalos em concursos públicos tornam familiar a linguagem de um protesto que nasce online e se materializa na rua. A própria designação irónica do partido — “baratas” — remete para uma declaração polémica de um juiz do Supremo indiano, que comparara jovens desempregados a insetos, e foi reapropriada como insígnia de orgulho.
Wangchuk, que em 2018 recebeu o Prémio Ramon Magsaysay pelo seu trabalho com glaciares artificiais no Himalaia, já passara 170 dias na prisão no ano anterior, acusado de incitar protestos — acusações que acabaram por ser retiradas. Agora, deitado sob o calor tórrido de Jantar Mantar, o homem que inventou a “estupa de gelo” para armazenar água no inverno e libertá-la na primavera tornou-se ele próprio uma imagem de resistência suspensa no tempo. A próxima etapa está marcada para 20 de julho, dia da abertura da sessão parlamentar das monções, com uma marcha até ao Parlamento. Até lá, o colchão branco continua a ser a única resposta a um governo que, por enquanto, não responde.
| Imprensa indiana e sul-asiática | −0.60 | critical |
|---|---|---|
| Imprensa africana subsaariana | 0.00 | neutral |
O governo indiano é culpado de indiferença em relação a um ativista que arrisca sua vida.
Enfatiza a deterioração física e as vozes de celebridades para criar um senso de urgência moral.
Não relata as justificativas do governo nem as declarações oficiais.
Um ativista indiano está se deixando morrer de fome, mas a situação está sob supervisão judicial.
Baseia-se em fatos objetivos e declarações oficiais, evitando qualquer linguagem avaliativa ou enquadramento partidário.
Não menciona as acusações políticas contra o governo nem o apoio de figuras públicas, reduzindo a dimensão política do protesto.
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