
O chifre no rosto e o mundo que parou numa chicuelina: a dupla face de San Fermín
No quinto encierro de Pamplona, um corredor foi colhido na cara enquanto a praça ignorava a subtileza de Morante de la Puebla, num festival que o centenário de Hemingway volta a expor ao olhar global.
Um touro negro desgarrou-se da manada logo no início do percurso de 875 metros e investiu contra um grupo compacto de corredores. O corno atingiu um deles em cheio na face, num impacto que o hospital da Universidade de Navarra registaria como a única cornada do dia, entre treze atendimentos. À mesma hora, na praça, o ar abrandava. Morante de la Puebla desenhava três chicuelinas que, na descrição de um cronista espanhol, fizeram «o mundo inteiro girar em câmara lenta». A praça, porém, não viu — ou não soube ver. O touro de Álvaro Núñez punteava com desconforto, e a obra do mestre, feita de pormenores e tempos mortos, dissolveu-se num silêncio que nenhum lenço branco interrompeu.
A edição de 2026 dos sanfermines assinala cem anos sobre a publicação de *The Sun Also Rises*, o romance com que Ernest Hemingway transformou a festa de Pamplona num ícone internacional. A efeméride atrai um fluxo ainda maior de visitantes, muitos deles estreantes, e o encierro de sábado expôs a equação de sempre: a massificação multiplica as quedas, os amontoados e o risco de colhidas. Na curva de Mercaderes, um moço veterano foi atropelado; em Estafeta, outro ficou ensanduichado entre um touro e um cabestro, escapando à manada que lhe vinha por trás. A nobreza dos animais da ganadaria de José Escolar evitou males maiores, mas o parte médico confirmou a segunda cornada da feira.
A festa corre também fora das ruas e do redondel. Na Colômbia, uma coluna do diário *El Espectador* recuperou a memória de “La Manada”, o grupo de cinco homens que violou uma jovem de 18 anos nos sanfermines de 2016, para interrogar a estética das multidões masculinas. A autora justapõe as imagens dos corredores vestidos de branco e vermelho, excitados pelo grupo, às marchas de nacionalistas brancos em Washington e às hordas de adeptos do PSG a subir a estátuas em Paris. A reflexão latino-americana apoia-se em dados: na Colômbia, as denúncias de violência intrafamiliar sobem 19% em dias de jogo da seleção; em Inglaterra, o abuso doméstico aumenta 38% quando a equipa perde. A manada, sugere o texto, não é apenas um agrupamento animal — é uma coreografia de permissão que se aprende por sobrevivência.
Do outro lado do Atlântico, a crítica taurina espanhola lamentava o divórcio entre a arte e o público. Borja Jiménez, diante de um touro de classe categórica chamado Gavilán, arrancou a faena de joelhos e com velocidade vertiginosa, mas não conseguiu sustentar o paraíso prometido por uma série de naturais. A sensação de touro desperdiçado instalou-se antes dos pinchazos. Já Morante, com um animal de raça em mínimos, ergueu «um monumento à verónica» e arrancou lampejos de alegria a um muermo, para depois recolher uma ovação com o sabor amargo de expectativas não cumpridas. «Muito toureiro para tão pouco touro», sentenciou o cronista.
Ao cair da tarde, a festa devolvia imagens que persistem para lá da pólvora e do alarido. Um corredor de rosto ensanguentado, o vulto de um touro a empurrar corpos como quem abre caminho, e o gesto contido de um toureiro que, ao saudar a ovação, fez com a montera um sinal mudo: «no seguinte». O centenário de Hemingway reacende o fascínio global por Pamplona, mas o que fica, entre a cornada e a chicuelina, é a pergunta que ninguém formula em voz alta — sobre o que fazemos com a manada quando ela se vira para nós.
| Imprensa atlântica / anglosfera | −0.20 | neutral |
|---|---|---|
| Imprensa latino-americana | −0.80 | critical |
| Imprensa europeia continental | −0.30 | critical |
A corrida de touros de San Fermín é um evento perigoso que causou ferimentos.
Ao citar o número de feridos e descrever o caos, o relatório apresenta o evento como um incidente de segurança que fala por si.
O relatório omite qualquer referência ao caso de estupro coletivo de 2016 (La Manada) associado ao festival.
O festival de San Fermín é um local de violência sexual sistêmica, exemplificado pelo caso La Manada.
Ao projetar o caso de estupro de 2016 no festival atual, a narrativa transforma a corrida de touros em um símbolo de violência patriarcal, em vez de um evento independente.
O relatório omite os detalhes da corrida de touros (chifradas, feridos, caos da multidão) para se concentrar exclusivamente no caso de agressão sexual.
A corrida de touros de San Fermín foi perigosamente caótica devido a um touro rebelde, e a tourada subsequente foi artisticamente decepcionante.
Ao fornecer descrições detalhadas e internas do comportamento do touro e do desempenho dos matadores, o relatório estabelece autoridade e enquadra o evento como uma questão de crítica técnica e cultural.
O relatório omite qualquer referência ao caso de agressão sexual La Manada de 2016 e à crítica social mais ampla sobre violência de gênero.
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