
O caderno volta à mesa: a reação silenciosa contra a inteligência artificial
De Chicago a Lagos, passando por Jacarta, a promessa da IA generativa esbarra em proibições de ecrãs, alertas médicos e uma nova procura por escolas que ensinem a pensar sem algoritmos.
No outono de 2026, os caloiros da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago vão entrar numa sala de aula onde os portáteis terão de permanecer fechados. A cena, que poderia pertencer a qualquer década do século XX, é na verdade a resposta de uma das mais prestigiadas escolas jurídicas do mundo à ubiquidade da inteligência artificial. Em vez de teclados, a turma terá um “escriba” designado para tomar notas coletivas. A medida, anunciada pela administração, não é um capricho nostálgico: pretende garantir que os futuros advogados aprendam a pensar de forma crítica e independente, sem o apoio invisível de um modelo de linguagem.
A decisão de Chicago ecoa um movimento mais amplo que percorre os corredores da elite educativa norte-americana. Um número crescente de famílias abastadas está a transferir os filhos para escolas alternativas como a Alpha School, onde os alunos passam apenas duas horas diárias em plataformas de aprendizagem personalizada e o resto do dia em projetos que desenvolvem pensamento crítico, negociação e empreendedorismo. A lógica, segundo observadores em Washington, é que as competências do futuro não se medem em testes padronizados, mas na capacidade de adaptação a um mercado de trabalho que a própria IA está a reescrever. Investigadores da Universidade de Stanford, contudo, alertam que a fusão entre aprendizagem por projetos e inteligência artificial ainda carece de evidências sólidas, e que substituir o título de “professor” pelo de “mentor” pode desvalorizar a profissão docente.
Do outro lado do Atlântico, o debate assume contornos igualmente tensos. Na Nigéria, estudantes universitários dividem-se: há quem veja na IA um assistente que descomplica conceitos e acelera a investigação, e há quem admita que a ferramenta está a “matar a garra” e a produzir trabalhos que os próprios autores não compreendem. A preocupação não é exclusiva de Lagos. Em Lisboa e em São Paulo, educadores acompanham com atenção os relatos de batota assistida por IA que levaram a Universidade de Brown a sancionar dezenas de alunos, e interrogam-se sobre como preservar a integridade académica sem ignorar que a tecnologia já faz parte da prática profissional.
Fora da sala de aula, a desconfiança ganha outras formas. Na Indonésia, o médico e influenciador digital Aditya Surya Pratama alertou para os perigos de consultar sintomas com um chatbot: as respostas longas e convincentes podem desencadear ansiedade e decisões clínicas erradas, um fenómeno que os especialistas apelidam de “alucinação” da IA. Enquanto isso, nos Estados Unidos, a Meta registou uma patente para um dispositivo que escuta risos e suspiros ao longo do dia para quantificar o estado emocional do utilizador e, segundo defensores da privacidade, servir anúncios direcionados às vulnerabilidades de cada um. A imagem de uma máquina que sussurra “este mês expressou mais gratidão” enquanto recolhe dados para um perfil publicitário condensa os receios de uma vigilância emocional permanente.
O que une estas histórias não é uma rejeição unânime da inteligência artificial, mas uma procura por limites. A própria Universidade de Chicago não baniu a tecnologia: exige que os alunos a utilizem em pesquisas jurídicas, mas impede que escreva por eles, e criou defesas orais de trabalhos para garantir que o conhecimento não é apenas gerado, mas verdadeiramente habitado. No fundo, a questão que percorre os corredores das escolas, dos hospitais e das casas é a mesma que um estudante nigeriano resumiu com simplicidade: a diferença está em usar a IA para aprender ou para evitar aprender. A resposta, por enquanto, cabe num caderno fechado sobre uma mesa de madeira, à espera que a primeira aula comece.
| Imprensa do Sudeste Asiático | −0.70 | critical |
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