
Novas revelações do caso Pegasus expõem vigilância marroquina e acirram disputa digital
Consórcio internacional divulga testemunho de ex-agente e evidências técnicas que ligam serviços secretos de Marrocos ao uso do spyware israelita, enquanto estudo paralelo mapeia campanhas de desinformação durante o Mundial de 2026.
Um consórcio de 16 órgãos de comunicação internacionais, incluindo o El Confidencial e o Le Monde, revelou esta semana o testemunho de um antigo membro da Direção-Geral de Vigilância do Território (DGST) marroquina, identificado como “Safir”, que descreve a utilização sistemática do software espião israelita Pegasus contra jornalistas, ativistas de direitos humanos, diplomatas e líderes políticos. Segundo a investigação, a ferramenta foi adquirida com financiamento dos Emirados Árabes Unidos e operada a partir de Rabat, tendo como alvos, entre 2018 e 2019, pelo menos 250 telemóveis em Espanha, incluindo o de uma antiga embaixadora da Argélia em Madrid, Taous Feroukhi, e de membros do governo de Pedro Sánchez. O Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional validou tecnicamente os registos de infeção, enquanto o consórcio teve acesso a manuais internos de treino e a listas de alvos.
As autoridades marroquinas negam categoricamente qualquer utilização do Pegasus e recordam que recorreram à justiça em França e em Espanha por difamação. Em Rabat, sublinha-se que a justiça espanhola arquivou o caso em julho de 2023 por falta de provas que ligassem a intrusão a uma entidade estrangeira concreta, e que a própria ex-ministra da Defesa francesa, Florence Parly, declarou em abril de 2026 não ter suspeitas sobre qualquer serviço de informações. A imprensa marroquina aponta ainda contradições no relato de “Safir”, nomeadamente sobre a origem dos fundos, que o consórcio não conseguiu confirmar de forma independente.
Na perspetiva de Argel e dos meios saharauis, as novas revelações confirmam a existência de uma aliança repressiva entre Marrocos, Israel e os Emirados. O académico saharaui Mohamed Bachir Lahsen, ele próprio um dos visados, afirmou ao diário Echorouk que o uso de tecnologia israelita contra defensores da autodeterminação do Saara Ocidental expõe a “natureza do sistema de ocupação” e anunciou a intenção de recorrer aos tribunais europeus. A publicação argelina TSA destacou que a antiga embaixadora Feroukhi foi um dos alvos prioritários da DGST, inserindo o caso na longa rivalidade bilateral e na disputa pelo Saara.
Este escândalo coincide com a divulgação de um estudo do Observatório Marroquino de Vigilância Mediática e Digital sobre a participação do país no Mundial de Futebol de 2026. O documento, baseado em mais de 500 publicações e interações, conclui que a imagem de Marrocos no espaço digital foi alvo de “conteúdos provocatórios e de escárnio”, frequentemente orquestrados por contas com motivações políticas, e que as discussões evoluíram de rivalidade desportiva para polarização identitária, sobretudo entre utilizadores marroquinos, argelinos e egípcios. O observatório alerta que a suscetibilidade emocional a esses conteúdos aumenta o risco de manipulação digital, num contexto em que a reputação das nações é disputada tanto nos relvados como nas plataformas.
O dossiê Pegasus permanece em aberto em várias jurisdições europeias, com ações cíveis em preparação por parte de vítimas e novas frentes de investigação jornalística. Enquanto Marrocos insiste na sua inocência e reforça a cooperação judicial, o caso ilustra, na leitura de analistas em Lisboa e Brasília, a centralidade da cibersegurança e da guerra de informação nas relações internacionais contemporâneas, com potenciais implicações para países lusófonos que também debatem os limites da vigilância estatal e a proteção de dados.
| Imprensa árabe Levante-Magrebe | −0.20 | neutral |
|---|---|---|
| Imprensa do Sudeste Asiático | −0.70 | critical |
| Imprensa europeia continental | −0.80 | critical |
Os defensores de Marrocos rejeitam as acusações do Pegasus como infundadas e apontam os triunfos diplomáticos do país, enquanto os críticos acusam o Estado de usar spyware israelense para silenciar a dissidência.
Ao justapor a celebração da Copa do Mundo com o escândalo de espionagem, o bloco cria uma equivalência moral que permite a cada lado reivindicar a superioridade.
As narrativas defensivas omitem o detalhado testemunho de um ex-agente de inteligência marroquino que corrobora o uso do Pegasus.
O ex-agente e o consórcio investigativo expõem o uso sistemático do Pegasus por Marrocos para monitorar críticos, revelando um padrão de abuso que envolve os mais altos níveis de segurança.
Ao centralizar o testemunho de um denunciante, a narrativa ganha credibilidade através de testemunha direta, tornando as acusações difíceis de descartar.
O relatório não inclui as negações oficiais de Marrocos nem a contranarrativa de uma campanha difamatória.
A investigação revela o 'vice-rei' de Marrocos e seu Bureau 21 como os cérebros por trás de um vasto aparato de espionagem que visa tanto dissidentes nacionais quanto líderes internacionais.
Ao personificar o sistema de vigilância em uma única figura poderosa, a narrativa simplifica um complexo aparato estatal em um vilão claro, tornando a história mais convincente e acusatória.
O artigo omite o contexto da Copa do Mundo e as conquistas diplomáticas de Marrocos, concentrando-se exclusivamente na dimensão da espionagem.
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