
No rastro de Supergirl e Woody, o cinema reescreve heranças entre aplausos e algoritmos
Enquanto a nova Supergirl colhe elogios em Londres e Toy Story 5 enfrenta a concorrência das telas e do futebol na América Latina, criadores e intérpretes negociam os limites entre a nostalgia, a inovação e a inteligência artificial.
A premiere mundial de Supergirl: Woman of Tomorrow, celebrada na semana passada em Londres, deixou um rastro de críticas entusiásticas que a imprensa especializada traduziu como um voto de confiança no renovado Universo DC. Sob a batuta de James Gunn, a produção protagonizada por Milly Alcock abandona a génese luminosa da heroína para abraçar uma Kara Zor-El alcoólica, festeira e à deriva, que chega tarde à Terra e carrega a culpa de não ter protegido o primo mais novo. O filme, que se estreia no México e na Argentina a 25 de junho, um dia antes da chegada às salas norte-americanas, ancora-se no arco narrativo do comic Supergirl: Woman of Tomorrow e propõe uma viagem interestelar de vingança e justiça, menos solar do que a do Homem de Aço.
Na América Latina, a aterragem da kryptoniana coincide com um tabuleiro de bilheteira já aquecido por Toy Story 5. No México, o regresso de Woody, Buzz e Jessie somou 5,2 milhões de espectadores no primeiro fim de semana, número robusto mas insuficiente para destronar Super Mario Galaxy, que estreara em abril com um milhão de entradas a mais no mesmo período, segundo a Câmara Nacional da Indústria Cinematográfica. Observadores na Cidade do México notam que a atenção mediática em torno dos jogos da Seleção Mexicana frente à Coreia e de outras seleções de peso, como Espanha e Argentina, fragmentou o público potencial, fenómeno que a indústria já antecipava para a época mundialista. Ainda assim, o quinteto de brinquedos liderou a cartelera, superando a nova obra de Steven Spielberg, e mantém a franquia como um dos pilares da temporada de inverno argentina, onde as salas se preparam para receber também Minions & Monstruos, Moana e o novo Homem-Aranha.
O quinto capítulo dos brinquedos da Pixar chega, aliás, carregado de camadas que extravasam a própria projeção. A trama confronta Bonnie, agora com oito anos, com um tablet em forma de sapo que desvia a atenção dos bonecos clássicos, espelhando uma inquietação que o ator Tom Hanks, voz original de Woody, transformou em condição pública para qualquer sexto filme: “Tem de ser ótimo. Tem de explorar algum tema que não vá apenas estender a franquia porque as pessoas gostam do título”, declarou à Entertainment Weekly. Hanks e Tim Allen, o Buzz Lightyear, discutiram ainda a hipótese, que ambos classificaram como “assustadora”, de o estúdio recorrer à inteligência artificial para recriar as suas vozes a partir do arquivo digital de todas as gravações anteriores, caso eles se recusem ou não possam regressar. A mesma melancolia tecnológica perpassa o final original descartado de Toy Story 5, revelado no livro The Art of Toy Story 5: em vez do reencontro físico entre Jessie e a sua primeira dona, Emily, agora avó, os realizadores optaram por um gesto indireto — a descoberta de que Emily batizou a filha em homenagem à vaqueira, preservando a ideia de que a memória afetiva resiste sem necessidade de um confronto explícito.
Enquanto a Pixar calibra o legado emocional dos seus personagens, a Illumination recua um século para reinventar o seu. Minions & Monstruos, que chega à Colômbia a 1 de julho depois de ser ovacionada no Festival de Annecy, situa Kevin, Stuart e Bob na Hollywood do cinema mudo, onde o seu talento natural para o slapstick os converte em estrelas involuntárias. A crítica europeia saudou o filme como “uma carta de amor ao Hollywood clássico”, reconhecendo as influências de Buster Keaton e Charlie Chaplin, e o fundador Chris Meledandri justificou a ambientação ao notar que os Minions sempre se comunicaram pela comédia física. A chegada do sonoro desencadeia o caos e liberta monstros sobre Los Angeles, numa curva narrativa que, para alguns analistas, retoma o frenesim característico da saga sem perder o engenho visual.
A cartografia dos lançamentos desenha, assim, um momento em que os estúdios testam os limites da herança afetiva do público. De um lado, a DC aposta numa Supergirl de arestas sombrias para consolidar um cânone interligado que exige atenção a séries animadas e temporadas de Peacemaker; de outro, a Disney prepara o live-action de Moana com Dwayne Johnson a repetir Maui, enquanto a Sony agenda para 30 de julho um Homem-Aranha solitário, quatro anos depois de apagar a própria memória dos entes queridos. No meio, Tom Hanks verbaliza o que paira sobre todas estas operações: a exigência de que cada regresso valha a pena, não apenas como negócio corporativo, mas como gesto narrativo que resista ao tempo — e, agora, à própria inteligência artificial que um dia poderá montar qualquer coisa que quisermos ouvir.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A temporada de cinema familiar de verão começa com Toy Story 5, que teve uma abertura forte mas não recorde, enquanto Tom Hanks impõe condições para um possível sexto filme. Supergirl e Minions & Monsters geram expectativa, este último elogiado em Annecy como um regresso à comédia física clássica. O mercado acompanha os números de bilheteira, equilibrando nostalgia e novos começos.
Toy Story 5 apresenta um capítulo em que os brinquedos enfrentam não um vilão, mas a invasão da tecnologia, espelhando ansiedades contemporâneas. A franquia, que arrecadou quase 100 mil milhões de dólares taiwaneses em 30 anos, continua a ser uma IP poderosa, atraindo até colaborações com estrelas como Taylor Swift. Entretanto, o novo filme de animação da DreamWorks 'A Ilha Perdida' surpreende em Annecy, juntando-se a um verão de entretenimento familiar que mistura legado e inovação.
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