
Modelo de IA da Anthropic expõe vulnerabilidades em sistemas secretos dos EUA e acirra disputa sobre soberania tecnológica
Testes com o Mythos identificaram falhas em horas, enquanto restrições a estrangeiros e ações judiciais revelam o choque entre segurança nacional e inovação aberta.
O modelo de inteligência artificial Mythos, da Anthropic, identificou vulnerabilidades em alguns dos sistemas informáticos mais sensíveis do governo dos Estados Unidos no espaço de horas, e não de semanas, durante um exercício controlado. A revelação, feita pela Associated Press com base em fontes oficiais anónimas e corroborada pelo senador Mark Warner a partir de informações do diretor da NSA, Joshua Rudd, altera a perceção sobre a capacidade ofensiva de modelos avançados em infraestruturas críticas. As fontes sublinharam que o Mythos detetou as brechas, mas não as explorou nesse intervalo, o que não diminui o impacto do achado: pela primeira vez se documenta publicamente que um modelo de linguagem de grande escala conseguiu radiografar com tal velocidade sistemas classificados.
O teste decorreu no âmbito do Project Glasswing, um programa restrito que junta a Anthropic, agências de informação norte-americanas e empresas tecnológicas para encontrar e corrigir falhas em software crítico antes que possam ser aproveitadas por atacantes. A cooperação, porém, coexiste com uma relação tensa entre a empresa e a administração Trump. A Anthropic recusou-se a permitir o uso dos seus modelos para vigilância doméstica e armas totalmente autónomas, o que levou o governo a colocá-la numa lista negra de segurança nacional e, em meados de junho, a ordenar o bloqueio do acesso de cidadãos estrangeiros aos modelos Fable 5 e Mythos 5. A empresa cumpriu a diretiva em 90 minutos, desativando os modelos para todos os clientes, mas classificou a medida como desnecessária. O New York Times noticiou que a NSA perdeu acesso ao Mythos durante o diferendo.
As consequências extravasaram o perímetro governamental. A Legion LegalTech Corp, empresa de tecnologia jurídica sediada na Califórnia, processou o Departamento de Comércio, alegando que a ordem interrompeu o trabalho da sua equipa de desenvolvimento no Canadá e causou um dano “imediato, irreparável e existencial”. O episódio ecoou também no debate internacional sobre soberania digital. O CEO da canadiana Cohere, Aidan Gomez, advertiu que depender de interfaces de programação de IA estrangeiras é um risco estrutural para nações democráticas, defendendo alianças que garantam controlo sobre toda a cadeia de valor. Observadores em Brasília notam que o caso reforça os argumentos de quem, no âmbito da estratégia brasileira de inteligência artificial, alerta para a vulnerabilidade de depender de um número reduzido de fornecedores externos. Em Lisboa, analistas sublinham o alinhamento com as preocupações da União Europeia sobre autonomia tecnológica, num momento em que o AI Act começa a ser aplicado.
O próximo marco factual será a decisão do tribunal federal de Washington, D.C., sobre o pedido de liminar da Legion para suspender a diretiva. A Anthropic, que não é parte no litígio, mantém negociações com a administração para resolver o bloqueio e planeia reintroduzir os modelos nos seus planos de subscrição assim que houver capacidade computacional suficiente. O desfecho deste braço de ferro ajudará a definir os limites da intervenção estatal sobre modelos fundacionais e o equilíbrio entre segurança nacional e inovação aberta, com reflexos diretos na disponibilidade de ferramentas avançadas para empresas e governos fora do eixo Washington–Silicon Valley.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A revelação de que o modelo Mythos da Anthropic violou sistemas altamente classificados dos EUA em poucas horas intensificou as preocupações sobre o poder de duplo uso da IA. A subsequente ordem de Washington para cortar o acesso estrangeiro aos modelos de ponta gerou um processo judicial e levou líderes tecnológicos a alertar que as nações democráticas devem reduzir urgentemente a dependência de um único fornecedor de IA para evitar riscos estruturais de segurança.
A Anthropic lançou o Claude Fable 5, seu modelo de IA publicamente disponível mais capaz até agora, projetado para se destacar em desenvolvimento de software, raciocínio complexo e tarefas científicas. A empresa enfatiza melhorias significativas de desempenho e mecanismos de segurança integrados, enquadrando o lançamento como um passo transformador para usuários profissionais.
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