
Manouchehr Farid, o ator que fez do exílio um papel sem palco, morre aos 89
Figura central da nouvelle vague iraniana, imortalizado em 'Ragbar', Farid abandonou o cinema após a Revolução Islâmica e passou décadas a trabalhar na indústria têxtil na Austrália.
Numa noite de meados da década de 1960, o cineasta Ebrahim Golestan e a poeta Forugh Farrokhzad assistiram a uma peça de teatro em Teerão. No palco, um jovem ator de expressão contida e voz sem afetação chamou-lhes a atenção. Terminado o espetáculo, Golestan convidou-o, juntamente com Jamshid Mashayekhi e Mohammad Ali Keshavarz, a ir a sua casa para ensaiar cenas de um filme que preparava. O ator era Manouchehr Farid, e o filme, 'Khesht o Ayeneh' (Tijolo e Espelho), marcaria a sua estreia no cinema e o início de uma colaboração que ajudaria a moldar a nouvelle vague iraniana.
Farid morreu a 11 de julho, aos 89 anos, em Melbourne, na Austrália, onde vivia desde os anos 1980. A notícia reavivou a memória de uma carreira breve mas intensa: em 14 anos, participou em 15 filmes, quase sempre sob a direção de nomes que redefiniram o cinema persa. O seu rosto ficou indelevelmente associado ao de Agha Rahim, o açougueiro de 'Ragbar' (Aguaceiro, 1972), de Bahram Beyzai — uma personagem que, longe de ser um vilão simplista, evolui para uma cumplicidade humana com o professor protagonista. Para a crítica brasileira, que redescobriu o cinema iraniano pré-revolucionário em mostras como as do Festival de Brasília, Farid representava uma naturalidade interpretativa rara, fruto da escola de Hamid Samandarian, mestre que o ensinou a combater os tons declamatórios então em voga.
A Revolução Islâmica de 1979 interrompeu essa trajetória. Farid, que era bahá'í, viu-se impedido de trabalhar. Filmou ainda 'Cherike-ye Tara' (A Balada de Tara) e 'Miras-e Man Jonun' (O Meu Legado de Loucura), este último sem o véu islâmico, antes de deixar o país em 1979. Nos Estados Unidos e depois na Austrália, nunca mais representou profissionalmente. Trabalhou na indústria têxtil, numa rotina que descreveu como 'um longo papel, desta vez não no palco ou no ecrã, mas na vida quotidiana'. Anos mais tarde, numa entrevista, o seu grito de dor rompeu o silêncio: 'Vocês não sabem a terra que me atiraram à cabeça... o coração que me partiram.'
O cinema iraniano perdeu um dos seus intérpretes mais singulares. Beyzai, que o dirigiu em quatro filmes, lamentou até ao fim o projeto frustrado de 'Ayyar-e Tanha' (O Malandro Solitário), cujo protagonista fora escrito para Farid e que nunca se concretizou por pressões do produtor para escalar uma estrela comercial. A imagem que perdura, porém, é a do 'homem histórico' de 'Cherike-ye Tara', emergindo do mar com uma presença mítica que sintetizava o encontro entre a tradição e a modernidade. Para os cinéfilos portugueses, que acompanharam as retrospetivas de Beyzai na Cinemateca, Farid era a encarnação de um cinema de resistência poética. A sua morte encerra um capítulo, mas o seu rosto continuará a surgir das águas do tempo, sempre que 'Ragbar' ou 'Tara' forem projetados.
| Imprensa iraniana e afins | +0.50 | aligned |
|---|---|---|
| Imprensa atlântica / anglosfera | −0.60 | critical |
| Imprensa europeia continental | 0.00 | neutral |
We Iranians honor Manuchehr Farid as a pillar of our cultural identity, a man of the sea who gave voice to the new wave.
Epic and sacred language is used, associating the artist with national and religious values, turning a cultural event into an act of resistance.
Criticism of the regime and personal controversies that could tarnish Farid's heroic image are omitted.
We denounce the regime's instrumental use of Farid to divert attention from its atrocities.
A parallel is drawn between the celebration of Farid and the regime's violence, creating a moral opposition that invalidates any positive aspect.
Farid's genuine artistic contributions and the historical context of the Iranian new wave are omitted.
We observe the Farid case as an example of how cultural memory is constructed in authoritarian contexts.
An academic tone is adopted, generalizing the case to a broader category of 'memory construction', reducing political specificity.
Immediate human rights implications and criticism of the regime are omitted to maintain neutrality.
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