
Macaco japonês Punch celebra um ano entre cartões e memórias de solidão
O pequeno macaco que comoveu o mundo ao abraçar um peluche de orangotango completa o primeiro aniversário rodeado de mensagens de fãs e já integrado no grupo.
Na manhã de domingo, os corredores do Jardim Zoológico e Botânico de Ichikawa, a leste de Tóquio, amanheceram forrados de envelopes coloridos e desenhos infantis. Mais de 2500 cartões de parabéns, enviados de vários continentes, cobriam uma parede inteira da exposição montada para celebrar o primeiro ano de vida de Punch — o macaco-japonês que meses antes surgira nas redes sociais agarrado a um peluche de orangotango, numa imagem que viajou do Japão ao Brasil, de Portugal a Moçambique, como um emblema improvável de resiliência.
Nascido há exactamente um ano, Punch foi abandonado pela mãe logo após o parto, provavelmente por exaustão. Os tratadores deram-lhe o boneco de pano para que desenvolvesse a capacidade de agarrar, vital para um recém-nascido da espécie. Durante seis meses, recebeu cuidados intensivos longe dos outros cinquenta macacos do recinto. Quando finalmente o transferiram para o espaço comum, em janeiro, os outros animais rejeitaram-no. Sozinho, o pequeno primata voltava a correr para o peluche, abraçando-o como quem procura abrigo. Essas imagens, partilhadas pelo zoo em fevereiro, tornaram-se virais e criaram uma onda de empatia global, com a etiqueta #HangInTherePunch a multiplicar-se nas plataformas.
A comoção ultrapassou a mera ternura. Observadores culturais notam que a história de Punch tocou uma fibra particular num momento em que milhões de pessoas se reviam na solidão do isolamento. O animal solitário que insistia em ser aceite pelo grupo funcionou como metáfora acessível e sem fronteiras. Nos comentários em língua portuguesa, multiplicavam-se as frases “força, Punch” e partilhavam-se desenhos do macaco com o seu orangotango de IKEA, enquanto perfis dedicados ao animal surgiam no Instagram e no TikTok. A escala do fenómeno espantou o próprio zoo, que viu as visitas diárias saltarem de poucas centenas para dezenas de milhares de pessoas, metade das quais estrangeiras — um fluxo raro para uma instituição modesta da periferia de Tóquio.
Com o tempo, porém, a crónica de Punch mudou de tom. Hoje o macaco já não se distingue dos companheiros: brinca com eles, deixa-se abraçar e raramente recorre ao peluche, que guarda num canto do recinto. A exposição de aniversário, com vídeos que documentam o crescimento desde os primeiros dias, atraiu visitantes como Kumi Ishizawa, uma mulher que diz ter superado uma doença prolongada com o propósito de ver o animal ao vivo. “Ele comoveu-me. Dizia a mim mesma: vou curar-me e visitar o Punch”, contou, emocionada, no espaço da mostra. Outra frequentadora, Yeye Lights, que nunca entrara no zoo antes de se tornar fã, passou a ter passe anual e preparou um bolo para o “Punch-kun”, usando o sufixo carinhoso japonês.
Longe dos holofotes, o primata que mobilizou corações em Luanda, Lisboa, São Paulo ou Díli passa agora os dias a trepar rochas com os seus pares. A parede forrada de mensagens coloridas permanece como testemunho efémero de uma identificação colectiva com a fragilidade — e com a teimosia suave de quem, mesmo tonto de cansaço, não larga o seu pedaço de pano.
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