
Literatura, memória e lei: o circuito de festivais que lê a América Latina em voz alta
Enquanto a Flip celebra os 70 anos de Grande Sertão e recebe Angela Davis, a FED na Argentina defende lei do livro, e Lima e Bogotá transformam feiras em fóruns de debate sobre passado e democracia.
Na manhã de abertura da 30.ª FIL Lima, dezenas de leitores caminharam pela via peatonal da Panamericana Sur porque os autocarros prometidos não chegaram. A cena, relatada por visitantes, condensava um pulso que percorre vários festivais literários latino‑americanos neste julho de 2026: uma determinação quase obstinada de alcançar os livros, mesmo quando as infraestruturas tropeçam. O regresso da feira peruana a Surco, ao fim de 17 anos, trouxe 170 stands, seis auditórios e a expectativa de 400 mil pessoas, mas também expôs os ajustes de um setor que se expande com poucas garantias.
Em Paraty, a 24.ª Flip homenageou uma obra que exige ser escandida. Sete décadas depois da sua publicação, “Grande Sertão: Veredas” voltou a soar na Casa Brasil de Histórias. O biógrafo Leonêncio Nossa recordou que, já em 1956, os leitores percebiam a musicalidade da prosa de Guimarães Rosa — “um livro que deve ser lido em voz alta porque com a musicalidade é fácil de entender”. No sábado, a ministra do STF Cármen Lúcia, a escritora Conceição Evaristo e a jornalista Miriam Leitão partilharam leituras da obra, cruzando‑a com ética, justiça e memória. Horas depois, Angela Davis reuniu 700 pessoas na tenda do Sesc Caborê para uma conversa sobre o Atlântico que liga América e África, mediada por Flávia Oliveira. A programação paralela espalhou debates por 46 casas: do voto e da democracia com Heloisa Starling aos relatos de guerra de Patrícia Campos Mello, tudo num centro histórico transformado em mapa vivo de urgências contemporâneas.
Em Buenos Aires, a 15.ª Feria de Editores (FED) fez do passado a sua matéria central. A historiadora Camila Perochena propôs “editar o passado para governar o presente”, numa reedição da ideia de que a história nunca é um livro fechado. Mas a feira não se limitou à metáfora: diante da tentativa governamental de derrogar a Lei 25.542, que fixa o preço único do livro, editores, livrarias e leitores reagiram de forma coesa. Inspirada nos modelos de França, Alemanha e Espanha, a norma tinha sido adoptada por Portugal, Itália, Áustria e Japão, e é vista no sector como um pilar da bibliodiversidade — uma protecção contra a concentração que, na perspetiva de Buenos Aires, mantém o ecossistema literário plural.
Em Bogotá, o Festival Gabo assinalou os 30 anos da fundação que leva o nome do Nobel colombiano, ocupando três espaços da capital com 150 atividades. As mesas deram especial relevo às crises da democracia e do jornalismo na região, um eixo que, sem alarde, uniu vários desses encontros. Entre os livros, o que ecoou foi uma forma de ler o continente em voz alta: a escuta atenta de uma língua que Rosa não inventou, mas que os vaqueiros de Minas ainda falam, e a defesa colectiva de leis que asseguram que esse timbre continue a ser editado, impresso e partilhado.
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