
Hanson ataca multiculturalismo e polícia investiga protesto em Camberra
Discurso da líder do One Nation no National Press Club foi interrompido por faixa do GetUp, enquanto senadora detalhava plano de governo anti-imigração e anti-imprensa.
O discurso mais aguardado da política australiana em 2026 terminou com um pedido de desculpas do National Press Club e uma investigação policial. Pauline Hanson, líder do partido de direita radical One Nation, apresentava na quarta-feira a sua visão para o país — abolir o multiculturalismo, restringir a migração muçulmana e extinguir departamentos governamentais — quando uma faixa amarela desceu inesperadamente atrás de si. O protesto, reivindicado pelo grupo ativista GetUp, acusava a senadora de ter votado contra aumentos salariais enquanto embolsava um acréscimo de cem mil dólares no próprio rendimento. O National Press Club pediu desculpas e encaminhou o caso à Polícia Federal Australiana, que investiga acesso não autorizado ao edifício e interferência em equipamentos.
A interrupção não impediu Hanson de detalhar, ao longo de mais de 50 minutos, uma plataforma que analistas em Camberra descrevem como a mais radical das últimas décadas. A líder do One Nation defendeu que a Austrália deve ser “multirracial, mas monocultural”, apontando o “islão radical” e os que não falam inglês como ameaças à identidade nacional. Anunciou ainda a intenção de flexibilizar direitos laborais para proteger pequenas empresas, com o recém-nomeado porta-voz das Finanças, Barnaby Joyce, a pedir “graça” enquanto o partido desenvolve as suas políticas económicas. A senadora manifestou desprezo por Camberra, prometendo abolir várias agências federais, e atacou os meios de comunicação social, acusando-os de tratar o seu movimento como um fenómeno passageiro.
A ação do GetUp expôs tensões entre segurança e protesto democrático. O grupo ativista, cujo responsável de media David Sharaz foi diretamente visado por James Ashby, chefe de gabinete de Hanson, terá instalado a faixa no dia anterior sem autorização. Ashby exigiu a proibição vitalícia dos envolvidos no clube, alegando que a segurança da líder foi comprometida. O episódio ecoa táticas de desobediência civil usadas por movimentos progressistas noutras democracias, mas também levanta questões sobre a vulnerabilidade de instituições políticas a intrusões simbólicas.
Na perspetiva de Brasília, o fenómeno Hanson encontra paralelos imediatos com o bolsonarismo: a retórica anti-establishment, a hostilidade à imprensa e a promessa de resgatar uma suposta pureza cultural. Observadores em Lisboa notam semelhanças com o discurso do Chega, que também cresceu ao capitalizar o cansaço com os partidos tradicionais e ao estigmatizar minorias religiosas. Nos países africanos de língua oficial portuguesa, onde lideranças populistas têm explorado fraturas étnicas e religiosas, o caso australiano serve de alerta sobre a rapidez com que forças outrora marginais podem normalizar-se quando as maiorias se sentem desprotegidas.
Com as sondagens a colocarem Hanson como primeira-ministra preferida e o partido a tornar-se a força mais popular do país, a questão de um pacto eleitoral com a coligação conservadora Liberal-Nacional ganha urgência. A frente liberal já debate se deve trabalhar “de mãos dadas” com o One Nation para derrotar o Partido Trabalhista nas eleições de 2028. O discurso de Camberra funcionou como um ensaio-geral do que seria um governo Hanson: uma Austrália que abandona o multiculturalismo, desmantela a ação climática e reconfigura os direitos laborais. Resta saber se o eleitorado que deseja incendiar o sistema político está preparado para as consequências desse incêndio.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Pauline Hanson usou seu primeiro discurso no National Press Club para denunciar o multiculturalismo, a ciência climática e as emissoras públicas, enquanto um ativista do GetUp desfraldou uma faixa acusando-a de hipocrisia salarial. O incidente é visto como sinal de uma onda direitista crescente na Austrália, com o populismo de longa data de Hanson agora encontrando eco mais amplo.
A líder do One Nation, Pauline Hanson, declarou que a Austrália deve se tornar monocultural, culpando a imigração pela escassez de moradias e pelo aumento dos aluguéis. A declaração foi relatada sem comentário editorial, focando em sua lógica política.
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