
Guterres visita Damasco e apela a apoio internacional à transição síria
O secretário-geral da ONU, António Guterres, reuniu-se com o presidente interino Ahmad al-Sharaa e pediu à comunidade internacional que se empenhe na reconstrução do país.
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, chegou este sábado a Damasco para uma visita de três dias, a primeira de um chefe da ONU à Síria desde 2009. Recebido pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Asaad al-Shaibani, Guterres encontrou-se com o presidente interino Ahmad al-Sharaa no palácio presidencial e apelou, nas redes sociais, a que a comunidade internacional “não poupe esforços” no apoio ao povo sírio. “As Nações Unidas estão ao lado da Síria neste momento crucial”, escreveu, classificando a deslocação como uma “visita de solidariedade”.
A visita ocorre num país ainda a sarar as feridas de quase 14 anos de guerra civil, que deixou mais de meio milhão de mortos e milhões de deslocados. Desde a queda do regime da família Assad, em dezembro de 2024, o novo governo de liderança islamita procura reconstruir as relações internacionais e relançar uma economia devastada. Contudo, a transição tem sido marcada por episódios de violência sectária — nomeadamente a morte de centenas de alauitas e drusos — e pela expansão militar de Israel no sul do país, que Damasco exige que se retire para o acordado em 1974. A ONU estima que 90% da população viva na pobreza e que a reconstrução exigirá cerca de 216 mil milhões de dólares, segundo o Banco Mundial.
Na perspetiva das capitais ocidentais, analistas europeus observam que a visita sinaliza um envolvimento cauteloso com as novas autoridades, condicionado a progressos na inclusão política e na responsabilização por abusos. Os Estados Unidos levantaram a maior parte das sanções e Donald Trump notificou Sharaa da intenção de retirar a Síria da lista de patrocinadores do terrorismo, mas a normalização plena depende de gestos concretos. A Rússia, tradicional aliada do regime deposto, acompanha a reaproximação com a ONU enquanto procura preservar influência, designadamente através das bases militares que mantém no terreno. Já Israel justifica as incursões no sul com a necessidade de criar uma “zona de segurança”, tendo acordado com Damasco um mecanismo de partilha de informações, sem que isso tenha travado as operações militares condenadas pela comunidade internacional.
O programa de Guterres inclui uma visita à força de manutenção da paz da ONU nos Montes Golã (UNDOF) e um discurso perante o novo parlamento transitório. A presença do secretário-geral, a mais elevada desde a queda de Assad, visa reforçar o compromisso da organização com a estabilização do país e a aplicação de programas nas áreas da saúde, educação, energia e agricultura. Para o Brasil, membro não permanente do Conselho de Segurança, o momento é acompanhado com interesse, dado o histórico engajamento em missões de paz e a defesa do multilateralismo. A visita poderá abrir espaço para uma maior coordenação de esforços humanitários e políticos, num dossiê em que os próximos passos dependerão da capacidade do novo executivo de garantir uma governação representativa e de conter as tensões internas e regionais.
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