
França rompe com Palantir e Europa busca soberania digital em IA
Decisão de Paris de trocar empresa de Peter Thiel por startup local expõe corrida por autonomia tecnológica que ecoa em Berlim, Roma e Zurique, enquanto Washington restringe acesso a modelos avançados.
A França deu um passo simbólico e estratégico ao anunciar, em meados de junho, que a Direção-Geral de Segurança Interna (DGSI) abandonará o software da americana Palantir Technologies. O contrato, vital para o tratamento de dados em larga escala pelos serviços secretos franceses, será transferido para a startup ChapsVision, numa operação que, segundo o ministro da Economia Roland Lescure, levará “vários meses” e exige análise cuidadosa de “diversas tecnicidades”. A decisão, noticiada com destaque pela imprensa italiana e russa, foi apresentada pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu como uma questão de soberania: “Não podemos depender de ferramentas desenvolvidas por potências estrangeiras”, afirmou, sublinhando a necessidade de modelos de inteligência artificial próprios para evitar uma “dependência estratégica digital”.
A rutura com a Palantir, empresa cofundada pelo libertário Peter Thiel — notório apoiante de Donald Trump —, não é um caso isolado. Na Suíça, um tribunal comercial de Zurique bloqueou recentemente o acesso da empresa a dados públicos, interpretando a IA não como um serviço neutro, mas como um recurso estratégico de propriedade nacional. Em Itália, fontes governamentais indicam que o executivo de Giorgia Meloni, embora evite um confronto direto, decidiu não celebrar novos contratos estratégicos com a tecnológica americana, temendo a externalização do “ouro dos nossos dias”: os dados de instituições e cidadãos. A desconfiança alastra-se enquanto a administração Trump restringe o acesso de estrangeiros aos modelos de IA mais avançados, acelerando a perceção de que a tecnologia deixou de ser um bem global para se tornar um instrumento geopolítico.
Perante este cenário, Paris e Berlim aceleram a construção de uma alternativa europeia. O Instituto Nacional de Investigação em Ciências e Tecnologias Digitais (INRIA) francês e o Centro Alemão de Investigação em Inteligência Artificial (DFKI) anunciaram, na feira VivaTech, os primeiros passos para um centro conjunto de investigação e desenvolvimento. A iniciativa, revelada pela imprensa alemã, visa criar modelos de IA soberanos que libertem a Europa da “boa vontade de parceiros capazes de bloquear o acesso”, como advertiu o gabinete de Lecornu. A meta é ambiciosa: alcançar uma “autonomia real” no setor até 2027, prazo que coincide com a previsão de plena operacionalidade da ChapsVision nos serviços secretos franceses.
Para o mundo lusófono, o movimento europeu serve de alerta e de espelho. Observadores em Brasília notam que o debate sobre soberania digital ganha urgência com a dependência de infraestruturas de nuvem e modelos de IA sob controlo estrangeiro, num momento em que o governo brasileiro discute a regulamentação da inteligência artificial e a proteção de dados estratégicos. Em Lisboa, a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia já havia colocado a autonomia digital no centro da agenda comunitária, e a recente colaboração franco-alemã reforça a necessidade de incluir parceiros de menor dimensão, mas com ecossistemas tecnológicos dinâmicos, como Portugal. Nos países africanos de língua oficial portuguesa, a questão coloca-se em termos de soberania de dados e de capacidade de desenvolver soluções adaptadas às realidades locais, evitando a replicação de dependências herdadas de anteriores ciclos tecnológicos.
A decisão francesa e a concertação europeia em curso mostram que a inteligência artificial se tornou um campo de disputa geopolítica, onde a confiança em fornecedores estrangeiros é cada vez mais condicionada por alinhamentos políticos. A aposta em campeões nacionais e em centros de investigação partilhados procura responder a uma dupla pressão: a concentração de poder tecnológico nos Estados Unidos e a perceção de que as grandes plataformas servem, antes de mais, os interesses estratégicos de Washington. Para a Europa e para o espaço lusófono, o desafio não é apenas desenvolver capacidades próprias, mas também garantir que a governação dos dados e dos algoritmos respeita valores democráticos e serve o interesse público — uma equação que exigirá investimento, coordenação política e um novo contrato social digital.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A França rompe com a Palantir e atribui a análise de dados de segurança interna a uma startup francesa. A escolha, embora complexa e com meses de implementação, acelera a busca por uma IA soberana europeia. Alemanha e França unem forças para enfrentar as restrições tecnológicas dos EUA.
Os serviços de inteligência franceses vão abandonar o software americano Palantir em favor de uma solução nacional, anunciou o primeiro-ministro. A decisão é apresentada como essencial para evitar a dependência estratégica digital de potências estrangeiras. A França reconhece assim a necessidade de modelos de IA proprietários para a segurança nacional.
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