
Europa prepara estratégia dura contra a China para travar défice comercial recorde
Com um défice diário de mil milhões de euros, a UE mobiliza-se para adotar novos instrumentos protecionistas e diversificar cadeias de abastecimento, enquanto Pequim alerta para retaliações.
A escalada das tensões comerciais entre a União Europeia e a China atinge um ponto de inflexão às vésperas de uma cimeira crucial em Bruxelas. O défice comercial do bloco com Pequim tornou-se "insustentável", nas palavras da Comissão Europeia, tendo disparado para 31,9 mil milhões de euros só em abril — um ritmo de cerca de mil milhões por dia ao longo de 2022. Perante o receio de uma desindustrialização europeia, uma ampla coligação de Estados-membros, que junta liberais e intervencionistas, converge na necessidade de uma nova estratégia comercial musculada, combinando instrumentos de diversificação de fornecedores e de proteção acelerada.
A ofensiva exportadora chinesa, impulsionada por subsídios estatais maciços e rápida modernização industrial, alastra-se dos veículos elétricos à química e às plataformas de comércio eletrónico. O comissário europeu do Comércio, Maroš Šefčovič, sublinhou que a relação bilateral "chegou a um ponto que exige um reequilíbrio", descartando o confronto direto, mas defendendo medidas corretivas. Pequim, pela voz do seu embaixador junto da UE, mostrou compreensão pelas preocupações europeias, mas advertiu que responderá a políticas protecionistas, num equilíbrio precário entre o apelo ao diálogo e a ameaça de retaliação.
Para a África lusófona e o Brasil, o agudizar deste diferendo projeta sombras e raras oportunidades. Economias como a angolana e a moçambicana, fortemente dependentes do financiamento e da procura chinesa por matérias-primas, poderão sofrer se uma guerra comercial travar o crescimento da segunda maior economia mundial. O Brasil, grande exportador de commodities para a China, observa com apreensão, mas analistas em Brasília notam que a eventual busca europeia por fornecedores alternativos pode abrir nichos para produtos brasileiros, desde que a escalada não contamine o comércio global. Portugal, membro da UE com laços históricos e económicos com a China — do investimento na EDP à presença no Fórum Macau —, defende uma linha de firmeza regulatória sem ruptura diplomática.
A cimeira europeia deverá chancelar uma postura mais assertiva, mas o caminho é minado. A aplicação de tarifas e barreiras não tarifárias, sobretudo no setor automóvel e nas tecnologias limpas, pode desencadear represálias chinesas sobre ícones europeus, do vinho aos bens de luxo. O espectro de uma guerra comercial em larga escala, somado às tensões remanescentes com os EUA, pressiona a arquitetura multilateral do comércio. Para a Europa, o desafio é reequilibrar a relação sem estrangular cadeias de valor globais — um cálculo que terá consequências muito para além do Atlântico Norte.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A enxurrada de exportações chinesas, infladas por subsídios estatais, está a provocar um choque industrial na Europa, ameaçando uma desindustrialização pura e simples nos setores automóvel, químico e de tecnologias limpas. Economistas e políticos lançam o alarme: a UE tem de adotar contramedidas urgentes antes que a sua base industrial seja esvaziada.
Uma ampla coligação de Estados-membros da UE, dos liberais aos intervencionistas, está a unir-se em torno de uma nova estratégia comercial agressiva que visa a China, apresentada como uma defesa contra a desindustrialização. Pequim vê nisso protecionismo, avisa que poderá retaliar e continua a apelar ao diálogo para evitar uma guerra comercial.
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