
Ocidente fixa meta para reduzir dependência de minerais da China, mas Europa divide-se sobre retaliação comercial
G7 estabelece teto de 60% para importações de terras raras até 2030, enquanto UE debate como travar défice comercial de 360 mil milhões de euros sem cair no protecionismo.
A cimeira do G7 em Évian e o Conselho Europeu em Bruxelas convergiram esta semana num diagnóstico comum: a dependência ocidental da China, tanto em matérias-primas críticas como em bens industriais, tornou-se um risco sistémico. O comunicado do G7 foi invulgarmente concreto ao fixar que, até 2030, nenhum país deverá fornecer mais de 60% das importações de terras raras e ímanes permanentes, com a ambição de descer para 50% “o mais rapidamente possível”. A meta visa diretamente Pequim, que controla mais de 90% de etapas centrais como a separação e o processamento. Contudo, a declaração do chanceler alemão Friedrich Merz — “não vamos impor quotas” — lançou dúvidas sobre a consistência da estratégia de Berlim, que oscila entre elogiar a China como parceiro e denunciar a “desvantagem competitiva massiva” provocada pelas exportações subsidiadas.
Na capital belga, os chefes de Estado e de governo da UE evitaram nomear a China, discutindo “desequilíbrios macroeconómicos globais”, mas o recado foi inequívoco. O primeiro-ministro luxemburguês, Luc Frieden, classificou o défice comercial com Pequim — que em 2025 já cresce 15% ao ano e ronda os 360 mil milhões de euros — como uma “ameaça existencial” para a indústria europeia. A Comissão Europeia foi instada a desenvolver novos instrumentos de defesa comercial, embora vários líderes, como o belga Bart De Wever, tenham advertido que o protecionismo não é a solução. A Holanda e a Suécia defendem mecanismos de pressão económica à semelhança dos EUA, enquanto a Áustria insiste que a China é hoje mais um rival sistémico do que um parceiro. A Alemanha, cuja economia depende fortemente do comércio chinês, trava o passo, mas já admite discutir salvaguardas, desde que “agnósticas em relação ao país”.
A movimentação das potências industriais é lida em Brasília como uma janela de oportunidade. A ala desenvolvimentista do governo brasileiro interpreta a meta do G7 como um reforço da tese de que o Estado deve coordenar a política de minerais críticos, usando o interesse externo em lítio, nióbio, grafite e cobre para condicionar parcerias a compromissos de industrialização e transferência de tecnologia. O Brasil negoceia acordos com EUA, UE e Japão, e a proposta americana já menciona financiamento para refinação em território brasileiro, embora a menção a um “first look” para investidores dos EUA acenda alertas sobre prioridade informal a projetos.
O caminho europeu promete ser tenso. Apesar da unanimidade no diagnóstico, a escolha dos remédios divide os 27, e o tempo escasseia: o comissário da Indústria, Stéphane Séjourné, deu à UE no máximo três anos para proteger o tecido industrial. Ao mesmo tempo, a Alemanha enfrenta uma batalha orçamental em Bruxelas, com 16 Estados-membros a pressionarem por mais despesa comunitária, enquanto Merz exige poupança. Pequim já reagiu, defendendo os seus controlos de exportação e criticando a formação de blocos exclusivos. A questão que fica é se o Ocidente conseguirá coordenar uma resposta antes que a “janela de oportunidade” se feche — para a Europa e para os países fornecedores que, como o Brasil, aspiram a deixar de ser meros exportadores de matéria-prima.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A União Europeia está presa numa crise dupla: o modelo económico chinês, baseado em subsídios estatais e concorrência desleal, está a aumentar o défice comercial e a ameaçar as economias livres. Ao mesmo tempo, a batalha orçamental — com a Alemanha a resistir a nova dívida e a exigir poupanças — ameaça paralisar Bruxelas. Os líderes apelam a uma frente unida e ao fim da ingenuidade, enquanto o G7 tenta afrouxar o controlo chinês sobre matérias-primas críticas.
O acordo do G7 sobre terras raras irrita a China, mas o Brasil vê uma oportunidade estratégica. A ala desenvolvimentista do governo encara a medida como uma validação da necessidade de maior poder estatal de coordenação sobre o setor. O país negocia acordos com EUA, União Europeia e Japão, ampliando seu poder de barganha na reorganização das cadeias produtivas globais.
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