
Europa busca autonomia na defesa, mas rivalidades industriais e atrasos ameaçam projetos comuns
A procura por alternativas ao Patriot e as disputas franco-alemãs sobre caças, tanques e drones expõem os limites da cooperação militar europeia, enquanto Paris adota soluções russas contra drones.
A crescente dificuldade em obter sistemas Patriot, agravada pela elevada procura global e pelas limitações da produção norte-americana, está a empurrar países europeus e do Médio Oriente para uma alternativa fabricada no continente: o SAMP/T NG. O consórcio Eurosam já enceta conversações com o Kuwait e a Hungria, e cerca de quinze Estados — entre os quais a Suíça e a Estónia — manifestaram interesse no sistema. Contudo, na perspetiva de Moscovo, o programa tropeça num obstáculo decisivo: a impossibilidade de ser escalado rapidamente. As primeiras entregas não ocorrerão antes de 2029, um calendário que contrasta com a urgência imposta pela guerra na Ucrânia e pela instabilidade no flanco leste da NATO.
A procura por soberania tecnológica esbarra, porém, em divisões industriais profundas, sobretudo entre Paris e Berlim. O fracasso do projeto de caça franco-alemão FCAS dominou os debates da feira aeroespacial ILA, em Berlim, onde o presidente da MBDA, Éric Béranger, apelou a mais cooperação como resposta a um mundo cada vez mais incerto. A tensão transpôs-se para o campo de batalha terrestre: na Eurosatory, nos arredores de Paris, foi apresentado o conceito “MBT Vision 2032”, um sucessor do Leopard 2 desenvolvido pela alemã PSM, enquanto a França mantém as suas próprias ambições para o tanque do futuro. As divergências conceptuais revelam que, também no solo, a convergência franco-alemã está longe de ser uma realidade.
O mal-estar estende-se aos programas de drones. O Eurodrone, concebido para reduzir a dependência dos Reaper americanos, está agora ameaçado por um diferendo entre a Dassault e a Airbus. A Dassault exige compensações financeiras devido a alterações nas aquisições, e o primeiro voo, inicialmente previsto para 2025, foi adiado para 2027. Analistas em Washington anteveem um desfecho semelhante ao do FCAS, sublinhando que a incapacidade de harmonizar interesses industriais pode condenar mais uma iniciativa conjunta.
Enquanto os grandes programas patinam, a França adota soluções pragmáticas no campo de batalha imediato. O novo Leclerc XLR, modernizado no âmbito do programa Scorpion, exibe uma estrutura de grelha sobre a torre — uma cópia dos “mangais” que surgiram nos blindados russos em 2022 e que, apesar do escárnio inicial nas redes sociais, provaram a sua eficácia contra drones. A KNDS France já iniciou a produção em série do dispositivo, num reconhecimento tácito de que a inovação pode vir de onde menos se espera.
Observadores em Lisboa notam que a fragmentação dos projetos europeus pode atrasar a modernização das forças armadas de países lusófonos que dependem de equipamento ocidental, ao mesmo tempo que a NATO vê adiada a consolidação do seu pilar europeu. Na perspetiva de Brasília, a lentidão e as rivalidades abrem espaço para fornecedores alternativos, nomeadamente nos segmentos de transporte e vigilância. O apelo de Béranger por uma soberania partilhada continua a ser a condição necessária, mas os prazos alongados e as disputas comerciais mostram que o caminho para uma defesa europeia verdadeiramente autónoma será mais longo do que a geopolítica permite.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A cooperação europeia em defesa mostra fissuras profundas: os programas conjuntos de caças e drones estão em crise devido a disputas franco-alemãs. Diante da escassez de Patriots, a Europa considera alternativas como o SAMP/T NG, enquanto a França copia as 'gaiolas' russas nos tanques Leclerc. Os Estados Unidos preveem o fracasso do Eurodrone, confirmando a incapacidade europeia de agir de forma autônoma.
Apesar do fracasso do caça franco-alemão e das divergências sobre o tanque do futuro, os líderes industriais europeus insistem que a soberania só pode ser alcançada através de projetos conjuntos. O chefe da MBDA apela a mais cooperação para responder a um mundo incerto, enquanto a disputa sobre o MGCS mostra conceitos diferentes, mas ainda dentro de um quadro colaborativo.
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