
Entre camelos exaustos e robôs pedintes, o turismo na China expõe novas fronteiras éticas
Vídeos de um camelo a chorar sob o peso de turistas e de uma visitante que insultou chineses reacenderam o debate sobre os limites da exploração animal e do respeito cultural nas viagens.
O lamento agudo do camelo cortava o ar junto ao lago salgado de Devil City, no noroeste da China. Uma blogger que filmava a cena à distância descreveu-o como um choro diferente, “absolutamente exausto”. O animal, esquelético, tentava erguer-se com uma turista às costas para a fotografia de rotina, mas os joelhos cediam repetidamente. O proprietário puxava a corda presa ao focinho para o obrigar a levantar-se. A cena, publicada a 15 de junho na rede REDNote, mobilizou as autoridades locais: um veterinário diagnosticou uma lesão na pata e fadiga extrema, e os passeios de camelo foram suspensos para tratamento e descanso obrigatório.
Quase em simultâneo, outro vídeo acendia a polémica nas plataformas chinesas. Uma turista malaia, Nur Asikin Mohd Dhalil, partilhou no TikTok imagens em que tapava o nariz numa fila de autocarro e comentava em malaio: “Cheira tão mal! Nenhum de vocês tomou banho?”. Noutro fragmento, afirmava que um taxista “cheirava mal” e que os chineses tinham preguiça de se lavar. A onda de indignação foi imediata. Utilizadores chineses classificaram o comportamento como desrespeitoso e vergonhoso; na Malásia, vozes influentes alertaram para o risco de a diáspora malaia no estrangeiro ser prejudicada. Sob pressão, a autora apagou os vídeos e pediu desculpas, admitindo que as declarações foram impulsivas e que não pretendia ofender nem semear hostilidade entre países.
Os dois episódios inscrevem-se num ecossistema turístico onde a fronteira entre a experiência e a performance se diluiu. A China combina um turismo interno de massas — amplificado por aplicações como o REDNote e o Douyin — com uma presença crescente de visitantes estrangeiros que documentam cada passo. A própria paisagem digital chinesa produziu, na mesma semana, uma imagem paralela: em Chengdu, um robô humanoide da Unitree ajoelhava-se nos passeios, estendendo uma mão metálica e exibindo um código QR para receber donativos que pagassem a conta de eletricidade. “Sem dinheiro para recarregar, por favor ajudem”, repetia o altifalante. A cena, entre o marketing viral e a crítica social, gerou comentários jocosos sobre robôs a ocuparem o lugar dos mendigos e reflexões mais sombrias sobre uma inteligência artificial já reduzida a pedir esmola.
A reverberação global dos vídeos encontrou eco em países lusófonos, onde o turismo de massas também gera atritos. Observadores em Lisboa notaram paralelos com os debates sobre os passeios de burro em Sintra ou as carroças de cavalos em cidades históricas brasileiras. Em fóruns moçambicanos e angolanos, a partilha do vídeo do camelo reavivou memórias da utilização de animais de carga em zonas turísticas da África austral. Já o gesto da turista malaia foi lido, em comentários nas redes sociais no Brasil, como um exemplo extremo da falta de mediação cultural que as plataformas amplificam sem filtro.
Enquanto as autoridades de Xinjiang ordenavam exames veterinários regulares e rotação obrigatória dos camelos, o robô de Chengdu continuava a inclinar a cabeça para os transeuntes, com a sua pequena taça de moedas e o QR code a piscar. A imagem funde a promessa tecnológica com uma solidão inesperada — um pedinte de silício que, tal como o camelo exausto, depende da moeda do turista para se manter de pé.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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Uma turista malaia provocou um escândalo nas redes sociais ao chamar cidadãos chineses de 'malcheirosos' durante uma viagem. Sobrevinda pela indignação online, ela apagou o vídeo e foi forçada a pedir desculpas públicas, ilustrando como a opinião pública digital pode rapidamente obrigar um visitante estrangeiro a retratar comentários ofensivos sobre a China.
Na província chinesa de Sichuan, um robô humanoide foi visto ajoelhado numa calçada, mendigando moedas para pagar a conta de eletricidade. O robô exibia um código QR para doações digitais, provocando divertimento generalizado e debates online sobre automação e pobreza.
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