
Ensaio clínico da primeira vacina contra a estirpe Bundibugyo do Ébola arranca em Oxford
O ensaio de fase I inicia-se enquanto o surto na RDC se torna o mais rápido de sempre, ultrapassando 1.200 mortos e 2.900 casos, sem vacina ou tratamento aprovados.
O primeiro ensaio clínico em humanos de uma vacina contra a estirpe Bundibugyo do vírus Ébola começou em Oxford com a administração de uma dose a um voluntário de 37 anos. O candidato vacinal ChAdOx1 BDBV, desenvolvido em apenas oito semanas pelo Instituto de Ciências Pandémicas da Universidade de Oxford, utiliza a mesma plataforma de vetor adenoviral da vacina Oxford/AstraZeneca contra a covid-19. O estudo de fase I avalia segurança e imunogenicidade em adultos saudáveis e é financiado pela CEPI com 8,6 milhões de dólares. O Serum Institute da Índia, parceiro do projeto, já produziu e armazenou cerca de 620 mil doses.
A urgência do ensaio decorre do surto em rápida expansão na República Democrática do Congo (RDC). Declarado em 15 de maio, o surto registava, a 22 de julho, mais de 2.900 casos confirmados e perto de 1.300 mortes. Este ritmo de propagação não tem precedentes: a barreira dos mil óbitos foi atingida em pouco mais de dois meses, contra os oito meses que a epidemia de 2014-2016 na África Ocidental levou para alcançar o mesmo número. A taxa de letalidade situa-se em cerca de 40%, e as autoridades sanitárias congolesas admitem que o pico pode ainda estar por vir, uma vez que a vigilância de contactos está abaixo da meta de 95% e muitos doentes procuram cuidados tardiamente.
O controlo do surto é dificultado pela insegurança nas províncias do leste, palco de conflitos armados envolvendo grupos como o M23, e pela desconfiança das populações locais. A OMS declarou uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (PHEIC) e classifica o risco como muito elevado para a RDC, elevado para países vizinhos como o Uganda, mas baixo a nível global, por se tratar de um vírus de transmissão por contacto e não aérea. Para os países lusófonos, a ameaça direta é remota, mas as autoridades de saúde em Brasília e Lisboa seguem atentamente o ensaio, dada a familiaridade com a tecnologia adenoviral usada massivamente nas campanhas de vacinação contra a covid-19.
Os próximos meses trarão os primeiros dados de segurança e respostas imunitárias do ensaio de fase I. Se os resultados forem promissores, a existência de um stock de centenas de milhares de doses poderá permitir uma rápida implementação de vacinação de emergência, representando a primeira ferramenta preventiva específica contra a estirpe Bundibugyo.
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