
Em reunião com Putin, presidente cazaque defende congelamento da guerra na Ucrânia
Kassym-Jomart Tokayev recusou papel de mediador, mas sugeriu retomar a 'fórmula de Istambul 2.0' após receber sinais da Europa e dos EUA, em um raro encontro bilateral na Sibéria.
O presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, propôs durante um encontro bilateral em Omsk, na Sibéria, o congelamento do conflito entre Rússia e Ucrânia e o retorno às negociações baseadas nos acordos de Istambul de 2022. A declaração, transmitida pela televisão estatal russa, ocorreu à margem de um fórum de cooperação regional. Tokayev afirmou que recebeu “muitos sinais” de países europeus e dos Estados Unidos sobre a situação e que decidiu expressar sua “modesta opinião” diante de Putin, acrescentando que o Cazaquistão “se recusa categoricamente a ser mediador”. O líder russo, por sua vez, limitou-se a prometer informar detalhadamente o homólogo sobre a situação no “front ucraniano”.
A iniciativa de Astana ocorre num momento em que o Cazaquistão procura equilibrar sua aliança estratégica com Moscou — é membro da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) e tem fortes laços econômicos com a Rússia — com a defesa da integridade territorial ucraniana e a manutenção de canais com o Ocidente. Recentemente, ataques ucranianos com drones contra instalações do Consórcio do Oleoduto Cáspio, que transporta petróleo cazaque via Rússia, geraram protestos formais de Astana, que os classificou como “atentados inaceitáveis aos interesses econômicos do país”. Na perspetiva de analistas na Europa, a fala de Tokayev reflete o desconforto das repúblicas da Ásia Central com uma guerra que perturba rotas comerciais e fragiliza a segurança regional.
A referência à “fórmula de Istambul 2.0” remete aos esboços de acordo negociados nas primeiras semanas após a invasão russa de 2022, que previam neutralidade ucraniana e garantias de segurança de grandes potências. Tokayev observou que a origem do conflito “não é muito compreensível para muitos, inclusive para nós” e que seu prolongamento “só beneficia os adversários tanto da Rússia quanto da Ucrânia”. Essa retórica encontra eco em potências médias do Sul Global: em Brasília, o governo Lula tem defendido uma saída negociada e já propôs a criação de um clube de países para facilitar o diálogo, evitando alinhamentos automáticos. Em Lisboa, diplomatas sublinham que a posição cazaque se alinha à de nações lusófonas como Angola e Moçambique, que historicamente mantêm laços com Moscou e com o Ocidente e se abstiveram em votações condenatórias na ONU.
Apesar da repercussão, não foram anunciadas medidas concretas decorrentes do encontro. O Kremlin mantém sua exigência de reconhecimento das anexações territoriais como condição para um cessar-fogo, enquanto Kiev insiste na retirada total das tropas russas. O dossiê diplomático, porém, segue ativo: emissários americanos estiveram com o presidente Volodymyr Zelensky, e o chanceler russo, Serguei Lavrov, reuniu-se com o secretário de Estado dos EUA. Na prática, a intervenção de Tokayev sinaliza que mesmo aliados próximos de Moscou buscam alternativas para estancar uma guerra cujos efeitos se propagam muito além do campo de batalha.
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