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Mídia e Entretenimentoquarta-feira, 24 de junho de 2026

De um Picasso entre drogas a uma banana devorada: o valor da arte em três atos

Enquanto um Modigliani bate recordes em Londres e uma tela atribuída a Picasso emerge numa rusga antidroga, a obra de Maud Lewis resiste ao tempo e a banana de Cattelan volta a desaparecer.

No dia 15 de junho, agentes da polícia francesa revistavam a casa da tia de um suspeito de tráfico de drogas em Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris, quando deram com uma pintura que não constava do inventário habitual de apreensões. Entre 17 quilos de canábis, roupas de luxo avaliadas em 200 mil euros e perto de 7 mil euros em dinheiro, surgiu uma tela atribuída a Pablo Picasso. A revista Vanity Fair adiantou que poderá tratar-se de um retrato de Marie-Thérèse Walter, musa e companheira do artista entre 1927 e 1935. A investigação preliminar indica que a obra terá sido roubada a uma cidadã de Singapura por um funcionário de um depósito de arte parisiense, que alegou querer expor falhas de segurança. Enquanto peritos tentam autenticar a peça, o caso alimenta em Lisboa e no Rio de Janeiro a velha interrogação sobre os caminhos insólitos que a arte percorre quando se desvia dos circuitos oficiais.

Na mesma semana, a primeira parte do leilão da Coleção Joe Lewis, em Londres, alcançou 296,3 milhões de libras (cerca de 344 milhões de euros) na Sotheby’s. O lote mais cobiçado foi “Nu assis au collier”, de Amedeo Modigliani, arrematado por 48,2 milhões de libras (56 milhões de euros), o valor mais alto jamais atingido por uma obra do pintor em leilão na Europa. Seguiram-se um retrato de Gertrud Loew por Gustav Klimt (36,2 milhões de libras) e “Sleeping by the Lion Carpet”, de Lucian Freud (29,3 milhões de libras). Observadores em São Paulo notam que estes números confirmam a pujança do mercado de arte moderna, mesmo quando, do outro lado do Atlântico, a procura por uma pintora autodidata da Nova Escócia desafia as hierarquias tradicionais.

Com efeito, um leilão de arte popular canadiana realizado a 11 de junho pela Miller & Miller Auctions revelou que a procura por Maud Lewis permanece “muito forte”, nas palavras do diretor executivo Ethan Miller. Obras com gatos — “Three Black Cats” e uma tela com um felino branco inspirado no animal de estimação da artista, Fluffy — ultrapassaram os 40 mil dólares cada. As peças provinham de famílias que as adquiriram diretamente a Lewis durante as décadas de 1950 e 1960, quando turistas norte-americanos e canadianos as levavam como recordação da província. Alan Deacon, professor reformado que estuda a artista há mais de cinquenta anos, descreve um estilo “inconfundível” e uma autenticidade que explicam a adesão do público. A exposição “Maude Lewis: Coming Home”, na Land’s End Gallery em Yarmouth, inaugurada a 21 de junho, oferece agora uma das mais completas mostras da sua obra.

A fragilidade do valor artístico encontrou, porém, a sua expressão mais literal no Centre Pompidou-Metz, onde a instalação “Comedian”, de Maurizio Cattelan — uma banana fresca fixada à parede com fita adesiva — foi novamente alvo de furto. O museu apresentou queixa e substituiu de imediato a fruta, repondo a peça na sua forma original. Não é a primeira vez que a obra é comida: em 2019, o performer David Datuna fê-lo na Art Basel Miami Beach; em 2023, um estudante repetiu o gesto no Leeum Museum of Art, em Seul; e, em novembro de 2024, o colecionador Justin Sun adquiriu a peça por 6,24 milhões de dólares antes de a devorar. A própria instituição reconhece que a obra pretende evidenciar “o absurdo da especulação financeira e a fragilidade dos sistemas de conhecimento que sustentam o mercado de arte”.

Enquanto o Picasso resgatado aguarda um veredicto sobre a sua autenticidade e a banana de Cattelan é reposta pela enésima vez, os gatos de Maud Lewis continuam a saltar de coleção em coleção com a mesma naturalidade com que um dia saíram da sua pequena casa em Marshalltown. Em Maputo ou no Porto, estas histórias lembram que a arte nunca se deixa fixar num único regime de valor: ora se esconde entre haxixe e notas de euro, ora se pendura num museu para ser comida, ora resiste décadas numa parede anónima até que um leilão lhe devolva o brilho.

Como a mesma história é contada em outros lugares.

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quarta-feira, 24 de junho de 2026

De um Picasso entre drogas a uma banana devorada: o valor da arte em três atos

Enquanto um Modigliani bate recordes em Londres e uma tela atribuída a Picasso emerge numa rusga antidroga, a obra de Maud Lewis resiste ao tempo e a banana de Cattelan volta a desaparecer.

No dia 15 de junho, agentes da polícia francesa revistavam a casa da tia de um suspeito de tráfico de drogas em Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris, quando deram com uma pintura que não constava do inventário habitual de apreensões. Entre 17 quilos de canábis, roupas de luxo avaliadas em 200 mil euros e perto de 7 mil euros em dinheiro, surgiu uma tela atribuída a Pablo Picasso. A revista Vanity Fair adiantou que poderá tratar-se de um retrato de Marie-Thérèse Walter, musa e companheira do artista entre 1927 e 1935. A investigação preliminar indica que a obra terá sido roubada a uma cidadã de Singapura por um funcionário de um depósito de arte parisiense, que alegou querer expor falhas de segurança. Enquanto peritos tentam autenticar a peça, o caso alimenta em Lisboa e no Rio de Janeiro a velha interrogação sobre os caminhos insólitos que a arte percorre quando se desvia dos circuitos oficiais.

Na mesma semana, a primeira parte do leilão da Coleção Joe Lewis, em Londres, alcançou 296,3 milhões de libras (cerca de 344 milhões de euros) na Sotheby’s. O lote mais cobiçado foi “Nu assis au collier”, de Amedeo Modigliani, arrematado por 48,2 milhões de libras (56 milhões de euros), o valor mais alto jamais atingido por uma obra do pintor em leilão na Europa. Seguiram-se um retrato de Gertrud Loew por Gustav Klimt (36,2 milhões de libras) e “Sleeping by the Lion Carpet”, de Lucian Freud (29,3 milhões de libras). Observadores em São Paulo notam que estes números confirmam a pujança do mercado de arte moderna, mesmo quando, do outro lado do Atlântico, a procura por uma pintora autodidata da Nova Escócia desafia as hierarquias tradicionais.

Com efeito, um leilão de arte popular canadiana realizado a 11 de junho pela Miller & Miller Auctions revelou que a procura por Maud Lewis permanece “muito forte”, nas palavras do diretor executivo Ethan Miller. Obras com gatos — “Three Black Cats” e uma tela com um felino branco inspirado no animal de estimação da artista, Fluffy — ultrapassaram os 40 mil dólares cada. As peças provinham de famílias que as adquiriram diretamente a Lewis durante as décadas de 1950 e 1960, quando turistas norte-americanos e canadianos as levavam como recordação da província. Alan Deacon, professor reformado que estuda a artista há mais de cinquenta anos, descreve um estilo “inconfundível” e uma autenticidade que explicam a adesão do público. A exposição “Maude Lewis: Coming Home”, na Land’s End Gallery em Yarmouth, inaugurada a 21 de junho, oferece agora uma das mais completas mostras da sua obra.

A fragilidade do valor artístico encontrou, porém, a sua expressão mais literal no Centre Pompidou-Metz, onde a instalação “Comedian”, de Maurizio Cattelan — uma banana fresca fixada à parede com fita adesiva — foi novamente alvo de furto. O museu apresentou queixa e substituiu de imediato a fruta, repondo a peça na sua forma original. Não é a primeira vez que a obra é comida: em 2019, o performer David Datuna fê-lo na Art Basel Miami Beach; em 2023, um estudante repetiu o gesto no Leeum Museum of Art, em Seul; e, em novembro de 2024, o colecionador Justin Sun adquiriu a peça por 6,24 milhões de dólares antes de a devorar. A própria instituição reconhece que a obra pretende evidenciar “o absurdo da especulação financeira e a fragilidade dos sistemas de conhecimento que sustentam o mercado de arte”.

Enquanto o Picasso resgatado aguarda um veredicto sobre a sua autenticidade e a banana de Cattelan é reposta pela enésima vez, os gatos de Maud Lewis continuam a saltar de coleção em coleção com a mesma naturalidade com que um dia saíram da sua pequena casa em Marshalltown. Em Maputo ou no Porto, estas histórias lembram que a arte nunca se deixa fixar num único regime de valor: ora se esconde entre haxixe e notas de euro, ora se pendura num museu para ser comida, ora resiste décadas numa parede anónima até que um leilão lhe devolva o brilho.

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