
De um Picasso entre drogas a uma banana devorada: o valor da arte em três atos
Enquanto um Modigliani bate recordes em Londres e uma tela atribuída a Picasso emerge numa rusga antidroga, a obra de Maud Lewis resiste ao tempo e a banana de Cattelan volta a desaparecer.
No dia 15 de junho, agentes da polícia francesa revistavam a casa da tia de um suspeito de tráfico de drogas em Champigny-sur-Marne, nos arredores de Paris, quando deram com uma pintura que não constava do inventário habitual de apreensões. Entre 17 quilos de canábis, roupas de luxo avaliadas em 200 mil euros e perto de 7 mil euros em dinheiro, surgiu uma tela atribuída a Pablo Picasso. A revista Vanity Fair adiantou que poderá tratar-se de um retrato de Marie-Thérèse Walter, musa e companheira do artista entre 1927 e 1935. A investigação preliminar indica que a obra terá sido roubada a uma cidadã de Singapura por um funcionário de um depósito de arte parisiense, que alegou querer expor falhas de segurança. Enquanto peritos tentam autenticar a peça, o caso alimenta em Lisboa e no Rio de Janeiro a velha interrogação sobre os caminhos insólitos que a arte percorre quando se desvia dos circuitos oficiais.
Na mesma semana, a primeira parte do leilão da Coleção Joe Lewis, em Londres, alcançou 296,3 milhões de libras (cerca de 344 milhões de euros) na Sotheby’s. O lote mais cobiçado foi “Nu assis au collier”, de Amedeo Modigliani, arrematado por 48,2 milhões de libras (56 milhões de euros), o valor mais alto jamais atingido por uma obra do pintor em leilão na Europa. Seguiram-se um retrato de Gertrud Loew por Gustav Klimt (36,2 milhões de libras) e “Sleeping by the Lion Carpet”, de Lucian Freud (29,3 milhões de libras). Observadores em São Paulo notam que estes números confirmam a pujança do mercado de arte moderna, mesmo quando, do outro lado do Atlântico, a procura por uma pintora autodidata da Nova Escócia desafia as hierarquias tradicionais.
Com efeito, um leilão de arte popular canadiana realizado a 11 de junho pela Miller & Miller Auctions revelou que a procura por Maud Lewis permanece “muito forte”, nas palavras do diretor executivo Ethan Miller. Obras com gatos — “Three Black Cats” e uma tela com um felino branco inspirado no animal de estimação da artista, Fluffy — ultrapassaram os 40 mil dólares cada. As peças provinham de famílias que as adquiriram diretamente a Lewis durante as décadas de 1950 e 1960, quando turistas norte-americanos e canadianos as levavam como recordação da província. Alan Deacon, professor reformado que estuda a artista há mais de cinquenta anos, descreve um estilo “inconfundível” e uma autenticidade que explicam a adesão do público. A exposição “Maude Lewis: Coming Home”, na Land’s End Gallery em Yarmouth, inaugurada a 21 de junho, oferece agora uma das mais completas mostras da sua obra.
A fragilidade do valor artístico encontrou, porém, a sua expressão mais literal no Centre Pompidou-Metz, onde a instalação “Comedian”, de Maurizio Cattelan — uma banana fresca fixada à parede com fita adesiva — foi novamente alvo de furto. O museu apresentou queixa e substituiu de imediato a fruta, repondo a peça na sua forma original. Não é a primeira vez que a obra é comida: em 2019, o performer David Datuna fê-lo na Art Basel Miami Beach; em 2023, um estudante repetiu o gesto no Leeum Museum of Art, em Seul; e, em novembro de 2024, o colecionador Justin Sun adquiriu a peça por 6,24 milhões de dólares antes de a devorar. A própria instituição reconhece que a obra pretende evidenciar “o absurdo da especulação financeira e a fragilidade dos sistemas de conhecimento que sustentam o mercado de arte”.
Enquanto o Picasso resgatado aguarda um veredicto sobre a sua autenticidade e a banana de Cattelan é reposta pela enésima vez, os gatos de Maud Lewis continuam a saltar de coleção em coleção com a mesma naturalidade com que um dia saíram da sua pequena casa em Marshalltown. Em Maputo ou no Porto, estas histórias lembram que a arte nunca se deixa fixar num único regime de valor: ora se esconde entre haxixe e notas de euro, ora se pendura num museu para ser comida, ora resiste décadas numa parede anónima até que um leilão lhe devolva o brilho.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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The Russian bloc did not cover the story about record art prices. The provided materials focus on other domestic economic and political topics.
The Latin American bloc did not cover the story about art prices. The provided materials focus on football, politics, and local news.
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