
Confiança e custódia: os alicerces que podem levar os criptoativos ao centro do sistema financeiro
Enquanto a Austrália formaliza a supervisão de plataformas digitais e África lidera a inclusão financeira via fintech, as stablecoins emergem como força disruptiva que exige novos padrões de governança e cooperação transfronteiriça.
A migração dos ativos digitais da periferia especulativa para o núcleo das finanças institucionais está a depender de uma questão que os mercados tradicionais resolveram há décadas: quem guarda os valores e sob que quadro de responsabilidade. Na Austrália, o movimento para regulamentar as plataformas de custódia de criptoativos revela que a confiança deixou de ser um detalhe técnico para se tornar a infraestrutura que determinará se as criptomoedas entrarão nas carteiras de bancos, fundos de pensões e gestores de ativos. Em paralelo, a inovação disruptiva das stablecoins — moedas digitais estáveis, sem fronteiras, transacionadas instantaneamente e a baixo custo — avança de forma silenciosa mas firme, seguindo o padrão clássico descrito por Clayton Christensen: começa em nichos desvalorizados pelos grandes operadores e, gradualmente, redefine a arquitetura do sistema financeiro global.
Em África, essa transformação já é vivida no quotidiano. Com mais de 1,2 mil milhões de contas de dinheiro móvel registadas, a região concentra mais de metade das plataformas mundiais do género e movimenta volumes superiores a 1,4 biliões de dólares. No Gana, as criptomoedas deixam de ser uma abstração para se tornarem ferramenta de poupança, remessas e pagamentos transfronteiriços, especialmente num contexto em que a volatilidade cambial e o acesso limitado à banca tradicional tornam as stablecoins uma alternativa atraente. O mesmo impulso se observa nos países lusófonos do continente: em Angola e Moçambique, as fintech de pagamentos móveis e as soluções de crédito digital estão a preencher lacunas de inclusão, enquanto o acordo da Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA) pressiona governos e empresas a coordenarem políticas e a desbloquearem financiamento para um mercado único de três biliões de dólares.
Contudo, a expansão do crédito e a integração de ecossistemas digitais trazem riscos conhecidos. Observadores em Acra alertam que, em períodos de recuperação económica e queda de taxas de juro, a inclinação natural dos bancos para aumentar a carteira de empréstimos exige uma governança robusta, disciplina na qualidade dos ativos e resiliência de balanço. A experiência ganense ao longo de 2025 e início de 2026 mostra que a compressão das margens de juro pode acelerar a intermediação financeira, mas também expõe fragilidades se a expansão não for acompanhada por quadros de supervisão sólidos. A mesma lógica aplica-se ao universo dos criptoativos: sem mecanismos de custódia segregada, licenciamento e obrigações fiduciárias, a promessa de inclusão financeira digital corre o risco de reproduzir as falhas de confiança que já penalizaram os sistemas tradicionais.
A perspetiva brasileira e portuguesa acrescenta camadas relevantes a este debate. No Brasil, o marco regulatório das criptomoedas e o ambiente de inovação testado em sandboxes do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários procuram equilibrar proteção do investidor e estímulo à concorrência, num país onde a adoção de ativos digitais já rivaliza com a de mercados maduros. Em Portugal, o regime fiscal favorável às criptomoedas e a crescente presença de fintech atraem talento e capital, mas também levantam questões sobre a harmonização de regras de custódia e prevenção de ilícitos no espaço europeu. Nos dois casos, a confiança institucional é o eixo em torno do qual girará a aceitação generalizada.
O futuro próximo será marcado pela convergência entre a banca tradicional e os ecossistemas fintech, com as stablecoins a funcionarem como ponte para pagamentos internacionais mais rápidos, transparentes e baratos. A formalização da custódia, a coordenação regulatória transfronteiriça e a adoção de padrões de governança à altura da nova escala de transações serão os fatores que distinguirão uma integração virtuosa de uma fragmentação arriscada. Para os países lusófonos, a oportunidade reside em aproveitar a herança de inclusão digital africana, a maturidade regulatória europeia e a massa crítica brasileira para construir um corredor de confiança que transforme a disrupção das finanças sem fronteiras em desenvolvimento económico partilhado.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A confiança está a tornar-se a nova moeda de reserva à medida que as finanças digitais e tradicionais convergem. A questão crítica é quem detém os ativos e sob que quadro de responsabilização. Com os reguladores a formalizar a supervisão, a infraestrutura de custódia surge como o alicerce que poderá tornar as criptomoedas uma componente rotineira das carteiras institucionais.
Por toda a África, a banca tradicional e os ecossistemas fintech emergentes estão a conectar-se para impulsionar a inclusão financeira. O dinheiro móvel e as carteiras digitais já transformaram a vida quotidiana, enquanto as criptomoedas são desmistificadas como dinheiro digital acessível aos cidadãos comuns. Ao mesmo tempo, as empresas são instadas a aproveitar as oportunidades do comércio livre continental e a manter uma governação sólida para garantir estabilidade a longo prazo e rentabilidade sustentável.
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