
Colômbia: guerrilheiros depõem armas em Putumayo às vésperas de eleição presidencial
A entrega de 99 fuzis pela CNEB é o maior avanço da “paz total” de Gustavo Petro, mas o destino do desarmamento está nas mãos dos eleitores.
Na selva do departamento de Putumayo, 99 guerrilheiros da Coordenadora Nacional Ejército Bolivariano (CNEB) depuseram simbolicamente os fuzis na quinta-feira, depositando-os num contentor com a inscrição “Aposto na vida, cumpro o meu compromisso com a paz”. O gesto, a três dias da segunda volta das presidenciais, representa o avanço mais significativo da política de “paz total” do presidente Gustavo Petro, cujo mandato termina a 7 de agosto. Oriundos de zonas remotas, os rebeldes foram transportados de helicóptero para o vale de Guamuez, onde permanecerão até dez meses em casas alimentadas por energia solar, enquanto se negoceia o seu estatuto jurídico e o desarmamento definitivo. Dissidentes das FARC que rejeitaram o acordo de 2016, os membros da CNEB controlam territórios estratégicos de produção de coca na fronteira com o Equador e são o único grupo armado a registar progressos nas conversações com Petro, que até agora fracassaram com outras guerrilhas e organizações paramilitares.
O ato de depor armas numa fase tão precoce das negociações — as FARC só o fizeram um ano após a assinatura do acordo — envia “uma mensagem muito forte e poderosa para a sociedade colombiana nesta época de tanto ruído de guerra”, afirmou Armando Novoa, chefe da delegação governamental. O pacto prevê ainda a destruição de mais de 14 toneladas de material explosivo. Contudo, a dimensão do grupo é modesta: o executivo estima entre 2.000 e 3.000 integrantes, muito aquém do Exército de Libertação Nacional ou da fação de Iván Mordisco, o rebelde mais procurado do país. A entrega das armas ocorre num momento de intensificação da violência contra civis, atribuída a grupos que procuram desestabilizar o país antes do escrutínio.
No domingo, os colombianos escolhem entre o senador de esquerda Iván Cepeda, aliado de Petro que promete dar continuidade à “paz total”, e o candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella, defensor de uma “mão de ferro” com megacárceres, bombardeamentos e perseguição militar às máfias do narcotráfico em parceria com os Estados Unidos. De la Espriella recebeu o apoio do ex-presidente norte-americano Donald Trump, ao passo que Petro irritou Washington ao recusar extraditar comandantes guerrilheiros comprometidos com o processo de paz. O vencedor tomará posse em agosto e poderá, no caso da direita dura, desmantelar a Jurisdição Especial para a Paz, tribunal criado pelo acordo de 2016 que oferece penas alternativas a quem confesse crimes e repare as vítimas.
Na perspetiva de Brasília, a estabilidade em Putumayo interessa diretamente à segurança da fronteira norte do Brasil, onde rotas de tráfico e a presença de grupos dissidentes representam desafios permanentes. Observadores em Lisboa notam que o processo colombiano é acompanhado com atenção na África lusófona, em particular em Moçambique e Angola, países que enfrentaram conflitos prolongados e podem extrair lições do modelo de justiça transicional. A janela de dez meses para consolidar acordos com a CNEB decorrerá sob o novo governo: se Cepeda vencer, a “paz total” poderá expandir-se; se De la Espriella triunfar, o desarmamento corre o risco de ser revertido, empurrando os rebeldes de volta à clandestinidade e reacendendo a violência numa região já marcada pelo narcotráfico.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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No sul da Colômbia, cerca de cem guerrilheiros entregaram as armas, marcando o maior avanço da 'paz total' de Petro, mas também uma tentativa desesperada de salvar uma política questionada a três dias do segundo turno. Os rebeldes poderão agora se instalar em uma zona especial para consolidar acordos, enquanto o ceticismo sobre todo o processo permanece.
A três dias do segundo turno, 99 guerrilheiros depuseram as armas num gesto simbólico, único resultado tangível do projeto até agora fracassado de 'paz total' do presidente cessante Petro. O líder de esquerda queima seus últimos cartuchos com uma política decepcionante, já que este era o único grupo ainda à mesa de negociações.
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