
A última canção de Bonnie Tyler: o eclipse de uma voz que nasceu de um acidente
A cantora galesa, que faleceu aos 75 anos em Portugal, encerrou a sua derradeira atuação ao vivo com o tema que a imortalizou, sem saber que seria o seu adeus definitivo aos palcos.
Na noite de 19 de março, no histórico Shepherd’s Bush Empire de Londres, Bonnie Tyler fechou o seu concerto com os acordes dramáticos de “Total Eclipse of the Heart”. Aos 75 anos, a cantora galesa entregou-se à balada com a mesma intensidade de sempre, perante um público que a acompanhou em coro. Ninguém na sala poderia imaginar que aquela seria a sua última aparição ao vivo. Semanas depois, uma cirurgia intestinal de emergência em Faro, no Algarve, onde mantinha uma casa, levou a um coma induzido e a um lento agravamento clínico que culminou na sua morte, anunciada pela família a 9 de julho.
A voz que preencheu aquele teatro londrino era, na sua origem, um acaso clínico. Gaynor Hopkins, filha de um mineiro de carvão de Skewen, no sul do País de Gales, viu a sua carreira transformada em 1977, quando uma operação para remover nódulos nas cordas vocais e um grito de frustração durante a convalescença lhe conferiram um timbre rouco e inconfundível. Esse registo, frequentemente comparado ao de Rod Stewart, tornou-se a sua assinatura e impulsionou êxitos como “It’s a Heartache” e, sobretudo, “Total Eclipse of the Heart”, composta por Jim Steinman. A canção, que originalmente se chamaria “Vampires in Love” e fora concebida para um musical sobre Nosferatu, liderou as tabelas de vendas em ambos os lados do Atlântico e ultrapassou mil milhões de reproduções no Spotify, mantendo-se como um dos hinos mais reconhecíveis da década de 1980.
A ressonância da sua música extravasou largamente as fronteiras britânicas. No Brasil, a parceria bilingue com Fábio Jr. em “Sem Limites pra Sonhar”, em 1987, tornou-se um marco da música romântica e alcançou o topo das rádios. Na Argentina, “It’s a Heartache” foi adotada pelas claques de futebol como cântico de protesto, enquanto “Total Eclipse of the Heart” integrou a cabala sonora que a seleção de Carlos Bilardo ouvia a caminho do Estádio Azteca durante o Mundial de 1986. Em Portugal, onde a cantora residia parte do ano, a sua presença era discreta mas constante, e a notícia da sua morte foi recebida com pesar por uma comunidade que a via como uma vizinha ilustre do Algarve. A sua participação no Festival Eurovisão da Canção de 2013, em Malmö, e a condecoração com a Ordem do Império Britânico em 2023 sublinharam um percurso que, segundo a imprensa europeia, nunca cedeu à nostalgia vazia, mantendo-se ativo até ao fim.
As homenagens multiplicaram-se nas horas seguintes ao anúncio. Rod Stewart, que partilhava com ela a alcunha de “voz de lixa”, recordou-a como “uma boa amiga e uma verdadeira agitadora de almas”. Catherine Zeta-Jones, prima afastada da cantora, escreveu que o seu coração estava “partido”. Nas redes sociais, fãs de várias gerações partilharam cenas de filmes como “Footloose” e “Shrek 2”, onde “Holding Out for a Hero” ganhou uma segunda vida. A imagem que perdura, porém, é a de uma mulher de 1,58 metros que, com uma voz nascida de um grito, conseguiu fazer do eclipse uma metáfora de luz.
| Imprensa latino-americana | +0.20 | neutral |
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The news is reported with respect, highlighting the singer's contribution to pop music.
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