
Bandeiras rasgadas no Danúbio e um Orgulho 'normal': Budapeste vive o primeiro Pride pós-Orbán
Sob um calor de 40 graus, a marcha do orgulho LGBTQIA+ húngaro recuperou a legalidade, mas um grupo de manifestantes anti-Pride atirou ao rio as bandeiras arco-íris da ponte Elisabete, num gesto que contrasta com o novo clima político.
Na tarde de sábado, um grupo de manifestantes anti-Pride dirigiu-se à ponte Elisabete, em Budapeste, onde a câmara municipal içara bandeiras arco-íris. Arrancaram-nas e lançaram-nas ao Danúbio, enquanto a 31.ª Marcha do Orgulho LGBTQIA+ da cidade se preparava para arrancar sob um calor sufocante de quase 40 graus. O gesto, registado por agências internacionais, foi um dos poucos sobressaltos de um dia que, para muitos, simbolizou o regresso a uma normalidade há muito suspensa.
Ao contrário do ano passado, quando a polícia proibiu o evento com base numa lei de “proteção da infância” do governo de Viktor Orbán, desta vez as autoridades não viram “motivo algum” para impedir a marcha. O ativista e jornalista Ádám Kanicsár resumiu a diferença: “No ano passado lutámos pelos nossos direitos; este ano é uma celebração normal”. Em 2025, apesar do veto, cerca de 200 mil pessoas saíram à rua num ato de desobediência civil que muitos observadores na Europa central consideram ter sido o princípio do fim da era Orbán. Agora, sob um novo governo conservador mas pró-europeu de Péter Magyar, a afluência caiu para cerca de 25 mil — um número que os organizadores atribuíram tanto ao calor extremo como à ausência do efeito mobilizador da proibição.
A mudança de tom em Budapeste não é apenas atmosférica. O anterior primeiro-ministro, derrotado nas eleições de maio, passara 16 anos a transformar a comunidade LGBTQIA+ num alvo político, com leis que proibiam a mudança de género nos documentos e restringiam a exposição de menores a conteúdos sobre homossexualidade. O novo executivo de Magyar, embora mantenha formalmente essa legislação, autorizou a marcha e anunciou que em setembro se iniciarão consultas para uma nova Constituição. Ainda assim, nenhum membro do governo ou do partido Tisza compareceu no cortejo. Quem marcou presença foi o presidente da câmara de Budapeste, Gergely Karácsony — o mesmo que no ano passado encontrara uma brecha legal para declarar a parada como evento municipal —, acompanhado pela comissária europeia Hadja Lahbib.
Para a comunidade LGBTQIA+ húngara, o dia foi vivido com uma mistura de alívio e memória traumática. “O Fidesz roubou-me 16 anos de vida”, disse Kanicsár, referindo-se ao partido de Orbán, enquanto outros ativistas lembravam que a proibição de alterar o género nos documentos continua a “complicar a vida a todos os níveis”. O relatório Rainbow Map 2026, divulgado pela Ilga-Europe, coloca a Hungria no 38.º lugar entre 49 países europeus em matéria de direitos e não discriminação — uma posição que, na perspetiva de analistas em Bruxelas, só se alterará com a revogação efetiva das leis restritivas. Ainda assim, o simples facto de a polícia não ter bloqueado as ruas foi recebido como um sinal de que o cerco institucional pode estar a ceder.
Ao cair da tarde, com o calor a dar uma trégua, os últimos manifestantes dispersaram. No Danúbio, os retalhos de tecido arco-íris flutuavam à deriva, enquanto a cidade retomava o seu ritmo. A imagem das bandeiras rasgadas na água, contraposta à marcha que decorrera sem incidentes graves, fixou a dualidade de um país que começa a sair de uma longa era de restrições, mas onde as feridas — e as hostilidades — ainda não cicatrizaram.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A Parada do Orgulho de Budapeste este ano pareceu comum, um contraste gritante com o ato de desafio do ano passado. Após dezesseis anos de restrições da era Orbán, a comunidade LGBTQ marchou sem medo de interferência policial, embora ativistas de extrema-direita tenham removido algumas bandeiras arco-íris. O evento marca um retorno histórico à normalidade, mesmo com a onda de calor e as tensões políticas residuais ao fundo.
As paradas do orgulho em Budapeste e Milão neste sábado expõem humores divergentes. Enquanto a capital húngara desfruta de uma celebração mais tranquila após o fim da era Orbán, a marcha de Milão adota um slogan de revolta dos corpos. Ambos os países continuam na parte inferior do mapa arco-íris europeu, evidenciando a discriminação persistente.
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