
Açúcar no espaço interestelar e fósseis com tecidos moles redefinem pistas sobre a origem da vida
Deteção inédita de eritrulosa numa nuvem molecular da Via Láctea e a conservação excecional de estruturas de crinoideos com 450 milhões de anos estão entre os achados que ampliam a compreensão da química prebiótica e da evolução animal.
A identificação da primeira molécula de açúcar verdadeiro no meio interestelar — a eritrulosa, um composto de quatro carbonos presente em framboesas e usado em autobronzeadores — altera os modelos de formação de moléculas orgânicas complexas no cosmos. Publicada na Nature Astronomy, a deteção foi feita por uma equipa do Centro de Astrobiologia de Espanha na nuvem molecular G+0.693-0.027, perto do centro galáctico, a cerca de 26 mil anos-luz. A abundância do açúcar, oito a dezassete vezes superior à dos análogos de três carbonos que não foram encontrados, contraria a hipótese de crescimento átomo a átomo e sugere que a eritrulosa se forma eficientemente em grãos de poeira interestelar a partir de fragmentos de dois carbonos. O achado reforça a possibilidade de que açúcares essenciais à vida tenham chegado à Terra primitiva através de cometas e asteroides.
Em paralelo, um fóssil de crinoideo com 452 milhões de anos, analisado por paleontólogos da Universidade de Oklahoma e descrito na Royal Society Open Science, preserva tecidos moles como os pés ambulacrais, estruturas tubulares usadas na alimentação e na interação com correntes marinhas. A conservação destes tecidos, extremamente rara, fornece a evidência mais antiga conhecida dessas estruturas e permite comparações com crinoideos atuais, revelando diferenças anatómicas que indicam funções ecológicas distintas nos oceanos do Paleozoico. Outro estudo, publicado na Scientific Reports, identificou em fósseis de Spriggina floundersi, com 550 milhões de anos, a mais antiga evidência de lateralização comportamental: cerca de 70% dos exemplares exibiam curvatura preferencial para a direita, sugerindo que a assimetria motora surgiu muito cedo na evolução dos animais bilaterais.
A pressão das profundezas oceânicas também revelou um mecanismo inesperado de reciclagem de nutrientes. Investigadores da Universidade do Sul da Dinamarca mostraram na Science Advances que, entre os 2 e os 6 quilómetros de profundidade, a pressão extrema espreme compostos orgânicos dissolvidos das partículas de “neve marinha”, libertando até 50% do carbono e mais de 60% do azoto antes de estas chegarem ao leito. Esse carbono e azoto alimentam micróbios, cuja população aumentou 30 vezes em dois dias nos ensaios laboratoriais, e altera as estimativas sobre a capacidade de armazenamento de carbono no oceano profundo. A mesma lógica de stress ambiental é visível num estudo de larga escala da Universidade Friedrich Alexander de Erlangen-Nuremberga, que compilou 1,6 milhões de medições de animais marinhos ao longo de 450 milhões de anos: durante crises de aquecimento, o tamanho corporal diminuiu de forma consistente, um efeito Lilliput que se revelou duas vezes mais intenso do que em crises provocadas por arrefecimento ou queda de oxigénio.
No plano planetário, o rover Curiosity da NASA fraturou acidentalmente uma rocha em Gediz Vallis, em Marte, expondo cristais de enxofre elementar puro — um “tesouro amarelo” cuja formação, sem evidências claras de vulcanismo ou hidrotermalismo no monte Sharp, permanece um enigma geológico. Os próximos passos incluem uma expedição ao Ártico para verificar in situ a fuga de nutrientes da neve marinha, a procura de mais açúcares no centro galáctico e a análise detalhada dos dados marcianos para decifrar a origem do enxofre.
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