
Acordo EUA-Irão derruba petróleo para mínimos de três meses e AIE antevê excedente em 2027
Com a iminente reabertura do Estreito de Ormuz, o barril de Brent cai abaixo dos 80 dólares e a Agência Internacional de Energia revê em forte baixa a procura para 2026, projetando um excedente de oferta sem precedentes no próximo ano.
Os preços do petróleo afundaram para níveis que não se viam desde o início de março, arrastados pela perspetiva de um acordo de paz provisório entre os Estados Unidos e o Irão. O Brent do Mar do Norte, referência internacional, rompeu a barreira dos 80 dólares e chegou a ser negociado abaixo dos 76 dólares, enquanto o West Texas Intermediate recuou para a casa dos 74 dólares. A queda acumulada de cerca de 40% face aos picos do conflito reflete o otimismo dos mercados com o memorando de entendimento que deverá ser assinado na sexta-feira, na Suíça, e que prevê um cessar-fogo de 60 dias, a reabertura do estratégico Estreito de Ormuz, o levantamento do bloqueio naval americano e o alívio das sanções sobre as exportações iranianas. Os primeiros petroleiros do Irão já começaram a movimentar-se, e o tráfego marítimo na região dá sinais de retoma.
O relatório mensal da Agência Internacional de Energia (AIE), divulgado esta quarta-feira, veio reforçar a guinada de cenário. A entidade reviu em baixa a procura mundial de petróleo para 2026, que deverá contrair-se em 1,1 milhões de barris por dia — uma queda quase três vezes superior à estimada há um mês —, enquanto a oferta global recua 3,9 milhões de barris diários. O choque de abastecimento provocado por quase quatro meses de guerra consumiu reservas estratégicas a um ritmo recorde: os stocks governamentais estão no nível mais baixo desde 1990, e as entregas no segundo trimestre desabaram 5 milhões de barris por dia em termos anuais. Apesar da destruição de procura, o mercado permaneceu em défice estrutural, com um buraco de 920 mil barris diários em 2026, mas a AIE alerta que a verdadeira reviravolta chegará em 2027, quando a oferta poderá disparar 8 milhões de barris por dia, contra um aumento da procura de apenas 2 milhões, gerando um excedente superior a 5 milhões de barris.
Na perspetiva de Brasília e de Lisboa, a queda das cotações é um alívio bem-vindo. O Brasil, importador líquido de derivados apesar da sua produção crescente, beneficia de um barril mais barato para conter a pressão inflacionista sobre os combustíveis. Portugal e os países africanos de língua oficial portuguesa importadores de crude, como Cabo Verde e Guiné-Bissau, também respiram com a redução da fatura energética. Já para os produtores lusófonos — Angola e Guiné Equatorial — o recuo dos preços ameaça as receitas fiscais e as contas externas, num momento em que a diversificação económica continua a ser um desafio. Analistas em Moscovo e no Golfo estimam que o Brent deverá estabilizar num intervalo entre 75 e 85 dólares no terceiro trimestre, com nova pressão descendente no final do ano.
A prudência, contudo, não desapareceu. A AIE sublinha que a normalização dos fluxos em Ormuz será gradual e que persistem riscos de incumprimento do acordo. A própria dimensão do excedente projetado para 2027 — o maior em décadas — levanta interrogações sobre a capacidade de coordenação da OPEP+ para evitar um colapso de preços. Observadores em Wall Street notam que o mercado começa a descontar uma espécie de “Trump put”, mas a volatilidade continuará elevada enquanto o texto final do pacto não for conhecido e as inspeções no terreno não confirmarem a reabertura plena da via marítima por onde transita um quinto do petróleo mundial.
O mundo prepara-se, assim, para uma transição abrupta da escassez para a abundância. Se a paz se mantiver, o regresso dos barris iranianos e a recuperação das infraestruturas do Golfo poderão inundar um mercado já fragilizado pela destruição de procura. Para o Brasil, o novo ambiente de preços testará a rentabilidade dos projetos do pré-sal; para Portugal e a África lusófona importadora, o alívio será imediato, mas os produtores africanos terão de ajustar orçamentos. A AIE, ao antecipar um excedente colossal em 2027, lança um aviso que vai muito além da geopolítica do Médio Oriente: o pêndulo do mercado petrolífero está prestes a oscilar com uma força raramente vista.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A queda do petróleo abaixo dos 80 dólares, desencadeada pelo acordo EUA-Irã e pela perspetiva de reabertura do Estreito de Ormuz, é vista como um alívio para os mercados. Os investidores apostam num rápido regresso dos fluxos petrolíferos, provocando uma forte descida dos preços. A notícia é recebida com pragmatismo e um certo distanciamento, como um desenvolvimento que alivia as pressões de custos globais.
Embora o petróleo tenha caído abaixo dos 80 dólares na sequência do acordo EUA-Irã, os especialistas do setor alertam que o restabelecimento da navegação normal no Estreito de Ormuz levará tempo. A queda imediata dos preços pode não refletir os desafios logísticos futuros. Um ceticismo cauteloso modera qualquer otimismo prematuro.
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