
Acordo entre EUA e Irão acalma mercados e derruba petróleo, mas real perde tração
Anúncio de um quadro de paz e da reabertura do Estreito de Ormuz alivia prémios de risco, impulsiona moedas desenvolvidas e expõe fragilidades domésticas no Brasil.
A revelação de que Washington e Teerão chegaram a um princípio de acordo para pôr fim ao conflito no Oriente Médio reconfigurou o mapa de riscos na sessão desta segunda-feira. O entendimento preliminar, que prevê a reabertura do estratégico Estreito de Ormuz e deverá ser formalizado na próxima sexta-feira na Suíça, fez desabar as cotações do petróleo — o Brent recuou mais de 5%, para a casa dos 82 dólares — e esvaziou o prémio de segurança que vinha encarecendo ativos de refúgio. A expectativa de normalização das rotas marítimas, por onde transita cerca de um quinto do consumo mundial de crude, injetou otimismo nas praças financeiras e inverteu a dinâmica de aversão ao risco que dominara as últimas semanas.
Na perspetiva de Brasília, o alívio externo teve efeitos desiguais sobre os ativos locais. O dólar à vista abriu em queda frente ao real, chegando a recuar 0,35% para R$ 5,0443 nos primeiros minutos, mas perdeu tração ao longo do dia e passou a oscilar próximo da estabilidade. O Ibovespa, que ensaiou uma abertura positiva, virou para o negativo durante a tarde, pressionado por um movimento de rotação de capitais em direção às ações de tecnologia norte-americanas. Apenas o mercado de juros futuros sustentou o tom benigno: a taxa do DI para janeiro de 2028 cedeu de 14,51% para 14,31%, refletindo a convicção de que a distensão geopolítica reduz pressões inflacionárias globais e abre espaço para políticas monetárias menos contracionistas.
Na Cidade do México, o peso aproveitou a maré de apetite por risco e valorizou-se 0,16%, cotado a 17,20 unidades por dólar. A moeda mexicana, frequentemente sensível às oscilações do petróleo e aos humores do comércio internacional, beneficiou diretamente da queda das cotações e da promessa de normalização das cadeias logísticas. Já nos mercados desenvolvidos, o dólar recuou para mínimos de dez dias frente ao euro e à libra esterlina, enquanto os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de dez anos aliviavam, sinalizando uma recomposição generalizada do apetite por risco.
Para as economias lusófonas, o novo quadro tem leituras divergentes. Portugal, enquanto importador líquido de energia, vê na redução do preço do barril um alívio para a fatura externa e para a inflação, num momento em que a recuperação económica europeia ainda enfrenta incertezas. Já Angola, cujo Orçamento do Estado assenta em receitas petrolíferas, observa com apreensão a queda das cotações, que pode comprimir a margem fiscal e reacender vulnerabilidades cambiais. Em Maputo, a expectativa de estabilização dos preços dos combustíveis oferece algum respiro ao consumidor, mas a volatilidade do mercado de crude mantém os planeadores cautelosos.
Apesar do otimismo inicial, analistas advertem que o acordo ainda é um memorando de entendimento e que a sua implementação dependerá de negociações delicadas nos próximos dias. A reabertura efetiva do Estreito de Ormuz e o levantamento do bloqueio a portos iranianos, mencionado pelo presidente Donald Trump, serão os testes cruciais para a credibilidade do processo. Enquanto os mercados digerem a perspetiva de menor tensão no Médio Oriente, a volatilidade cambial no Brasil recorda que fatores domésticos — como o calendário eleitoral e a trajetória da dívida pública — continuam a condicionar a confiança dos investidores, limitando o potencial de valorização do real mesmo quando o cenário externo se torna mais favorável.
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