
A enfermeira que esvaziava todos os cateteres, menos o seu
Do burnout parental à exaustão corporativa, especialistas de quatro continentes convergem: a incapacidade de dizer não está a transformar o cuidado em armadilha.
A imagem é da psiquiatra nova-iorquina Judith Joseph: uma enfermeira de urgência que passou o turno inteiro sem uma pausa para ir à casa de banho, mas garantiu que todos os cateteres dos doentes fossem esvaziados. O corpo aguenta até certo ponto. Depois, diz Joseph, o cérebro continua a funcionar em piloto automático, mas o organismo cede — desidratação, dor torácica, exaustão física. É o retrato clínico daquilo que especialistas em saúde mental, da Argentina à Indonésia, descrevem como o esgotamento silencioso de quem nunca aprendeu a recusar um pedido.
Na Argentina, uma equipa de psicólogos publicou um guia com dez recomendações para pôr limites sem culpa. O primeiro passo, defendem, é ganhar tempo com frases neutras, adiando a resposta para escapar à pressão do momento. A investigação argentina sublinha que a incapacidade de rejeitar exigências externas está diretamente ligada ao aumento de diagnósticos de esgotamento crónico, tanto em chefias intermédias como na esfera doméstica. Em casa, o conselho é claro: expressar as limitações de tempo sem justificações excessivas, porque explicar demais enfraquece a posição. O treino da assertividade, acrescentam, exige ensaiar negativas curtas e firmes, reduzindo a culpa que costuma acompanhar a preservação do espaço pessoal.
Do outro lado do mundo, em Jacarta, o discurso oficial do Ministro da População e Desenvolvimento Familiar, Wihaji, ecoa a mesma urgência, mas com o foco na paternidade. Durante as comemorações do Hari Keluarga Nasional, alertou para o fenómeno do “país sem pais” — homens presentes fisicamente, mas ausentes do ponto de vista emocional. A saúde mental das crianças, lembram pediatras e psicólogos indonésios, depende menos da quantidade de horas partilhadas e mais da qualidade da interação. O programa de rastreio gratuito do Ministério da Saúde daquele país detetou sintomas de ansiedade e depressão em cerca de 10% das sete milhões de crianças examinadas, um dado que reforça a necessidade de ambientes familiares onde os adultos também saibam cuidar de si.
Observadores em Acra, no Gana, notam que a exaustão parental é frequentemente agravada pela armadilha da distração — o copo de vinho, o scroll infinito nas redes sociais — que apenas adia a explosão. As sugestões práticas que circulam entre terapeutas africanos e norte-americanos incluem o uso de auriculares com cancelamento de ruído para amortecer o caos do fim de tarde e a imposição de um período diário de silêncio obrigatório para todos os membros da família. A mesma lógica de fronteira aparece no contexto corporativo: especialistas argentinos recomendam a desconexão digital absoluta fora do horário contratado e a adoção de um registo diário de compromissos, para visualizar a saturação da rotina antes que ela se torne insustentável.
A jornalista australiana que se queixa de ser uma “quiet achiever” preterida nas promoções ilustra o outro lado da moeda. O seu erro, nota a colunista Kirstin Ferguson, foi acreditar que os resultados falariam por si. A fronteira entre a dedicação e a invisibilidade é ténue, e a solução passa por documentar as próprias conquistas e comunicá-las sem receio de parecer vaidoso. No universo islâmico, a tradição oferece um contraponto: a moderação, a gratidão e a paciência são apresentadas como hábitos que devolvem leveza à vida, não como estratégias de produtividade. A enfermeira de Joseph, porém, continuará a esvaziar cateteres alheios enquanto ninguém lhe ensinar que o primeiro cuidado é o que se dá a si mesma.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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