
A carne envenenada e o riso: o comentário de Pedro Sola que incendiou o México
Uma frase dita ao vivo sobre atirar carne envenenada a cães em restaurantes desencadeou uma cascata de reações, da saída de patrocinadores a denúncias formais, e reacendeu o debate sobre os limites do discurso público.
No estúdio do programa Ventaneando, o apresentador Pedro Sola descreveu, com um sorriso, a vontade de “aventar um pedaço de carne envenenada” aos cães que via em lojas e restaurantes. Ao seu lado, a jornalista Pati Chapoy reagiu com uma gargalhada. A cena, transmitida em direto para milhões de lares mexicanos, tornou-se o epicentro de um terramoto cultural que, em poucos dias, atravessou fronteiras e plataformas.
A indignação foi imediata. Nas redes sociais, milhares de utilizadores exigiram consequências, enquanto organizações de defesa animal apresentavam uma denúncia formal na Procuradoria da Cidade do México. A resposta do mercado foi igualmente célere: as marcas Panditas, Trident, Halls e Clorets, do grupo Mondelēz, anunciaram a retirada da sua publicidade do programa, afirmando que as declarações “não estão alinhadas” com os seus valores. A Hellmann’s, que já tivera um desentendimento histórico com Sola, publicou uma mensagem enigmática: “Nem me falem nisso, há muito que não falamos”. Para observadores na Cidade do México, a rapidez da reação empresarial sinaliza uma nova sensibilidade do mercado face ao discurso de ódio, mesmo quando proferido por figuras com décadas de exposição televisiva.
O episódio desenterrou um arquivo digital implacável. Em poucas horas, circulava um vídeo de 2017 em que Sola, diante de um menino do MasterChef Júnior, fazia trocadilhos de duplo sentido. A atriz Leticia Calderón viu-se obrigada a esclarecer declarações de 2020 sobre a sua fobia a gatos, quando disse que não se importaria de os atropelar. A cantora Susana Zabaleta, por sua vez, respondeu a Sola com uma imagem igualmente crua: “Onde encontrares um homofóbico, ele vai matar-te assim, com um pedacinho de carne com veneno”. A metáfora, que pretendia denunciar a violência, foi acusada de a reproduzir. O jornalista René Franco classificou as palavras de Zabaleta como “vergonhosas” e “apologia da violência”, expondo a linha ténue entre a crítica e a réplica que se torna espelho do que condena.
A controvérsia extravasou o universo do entretenimento. A deputada Margarita Corro Mendoza, do partido Morena, pediu que se analisasse a aplicação do artigo 208.º do Código Penal, que pune a apologia do delito. O proprietário da TV Azteca, Ricardo Salinas Pliego, classificou os comentários como “lamentáveis”. Para analistas na capital mexicana, o caso ilustra um fenómeno mais amplo: a convergência entre a justiça penal, a pressão comercial e a memória digital está a redefinir o preço das palavras ditas ao vivo. Ao mesmo tempo, vozes como a de Crista Montes questionaram a autenticidade da indignação, lembrando que muitos dos que atacavam Sola ignoravam casos concretos de maus-tratos a animais.
Enquanto o apresentador pedia desculpas, cabisbaixo, lendo um texto no telemóvel, a imagem que perdurou foi outra: a de uma cidade, Quinchía, no departamento de Risaralda, onde uma senadora convocou uma jornada massiva para alimentar cães de rua, desafiando um alcaide que ameaçara multar quem o fizesse. A “banda do Serrucho”, como é conhecido o grupo de animais abandonados, tornou-se o contraponto silencioso de um país que, entre o estúdio e a rua, debate o lugar da compaixão.
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