
‘Queremos ir’: o grito dos retidos e a contagem para o ultimato anti-imigrante na África do Sul
Enquanto grupos marginais fixam 30 de junho como prazo para a saída de estrangeiros indocumentados, milhares de africanos acampam junto a consulados ou protestam por um lugar nos voos de repatriação.
‘We no go gree o, we wan go’ — não aceitaremos, queremos ir. A cantilena em pidgin, captada em vídeo e partilhada nas redes sociais na segunda-feira, ecoou junto aos portões da Alta Comissão da Nigéria em Pretória. Dezenas de cidadãos nigerianos, exaustos pela espera e pelo medo, protestavam contra os atrasos nos voos de repatriação prometidos pelo seu governo. A poucos dias do prazo de 30 de junho, fixado por grupos como o ‘March and March’ para que estrangeiros indocumentados abandonem o país, a urgência de partir tornou-se palpável.
A data, desprovida de qualquer valor legal, foi lançada por organizações marginais que culpam os imigrantes pelo desemprego superior a 30% e pela criminalidade. As autoridades sul-africanas reagiram com um dispositivo de segurança reforçado: a polícia elevou a prontidão operacional em todas as províncias e o exército foi destacado para proteger aeroportos e infraestruturas críticas, anunciou o ministro interino da Polícia, Firoz Cachalia. O país carrega uma história de explosões xenófobas mortíferas — 62 mortos em 2008, 12 em 2019 — e este ano já foram registadas três vítimas estrangeiras. Perante o clima de intimidação, vários governos africanos organizaram operações de repatriação voluntária. O Gana já fez regressar cerca de mil cidadãos; Moçambique, Zâmbia e Nigéria também enviaram centenas. Na cidade do Cabo, zimbabueanos acamparam dias a fio sob o frio do inverno austral diante do seu consulado até que os autocarros começaram a levá-los de volta. Em Durban, cerca de dez mil malauianos abandonaram as suas casas e amontoaram-se num espaço comunitário sobrelotado; cinco mil já foram repatriados e um segundo campo foi improvisado para acolher os restantes.
A pergunta que percorre os editoriais africanos — ‘Africans must go... but to where?’ — desenterra a ironia das fronteiras coloniais que hoje servem para excluir quem, durante séculos, circulou por territórios definidos mais pela cultura do que por barreiras rígidas. Em Acra, a coligação Ghana First Alliance apelou ao governo para que não renove a licença da mina de ouro de Tarkwa, operada pela sul-africana Gold Fields, como retaliação pelos ataques a ganenses. Em Maputo, o repatriamento discreto de centenas de moçambicanos foi acompanhado de um silêncio oficial que, segundo observadores locais, traduz o receio de perturbar as relações com o vizinho dominante da África Austral. De Brasília, onde a diáspora africana é reduzida mas a memória das migrações internas é forte, analistas notam que o episódio expõe a fragilidade do pan-africanismo quando o desemprego e a desigualdade se sobrepõem à retórica da unidade continental.
A contagem decrescente para 30 de junho transformou-se, assim, numa geografia de corpos à espera. Nas imagens que chegam de Pretória, o pidgin dos nigerianos funciona como uma senha de desespero partilhado. ‘We wan go’ — queremos ir — é o verso que une os que se aglomeram junto a grades consulares, os que dormem em pavilhões improvisados e os que já partiram em aviões fretados. A poucos dias do prazo, a pergunta que fica não é apenas para onde irão, mas que África restará quando o medo ditar as fronteiras.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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O ultimato de 30 de junho revela como a mobilização xenófoba de rua foi absorvida politicamente: o presidente condena a 'afrofobia' mas recusa-se a nomear os líderes do movimento. Dados mostram que o desemprego entre migrantes é inferior ao dos locais, e nações que outrora abrigaram exilados anti-apartheid estão agora a evacuar os seus cidadãos, expondo uma amarga ironia histórica. A crise é enquadrada não como xenofobia genérica, mas como um sentimento especificamente anti-negro africano que poupa estrangeiros brancos e asiáticos.
À medida que se aproxima o prazo de 30 de junho, a polícia reforça o destacamento enquanto grupos de vigilantes ameaçam africanos indocumentados. A questão moral ecoa: se os africanos têm de partir, para onde exatamente devem ir? Nigerianos retidos protestam junto à sua alta comissão entoando 'queremos ir', enquanto governos como o Gana e a Nigéria organizam voos de repatriação no meio de ataques brutais que já fizeram vários mortos.
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