
O filme que Bezos não quis mostrar: Amazon abandona ‘Artificial’ e o retrato sombrio de Sam Altman
Depois de investir 50 mil milhões de dólares na OpenAI, a Amazon MGM Studios retirou-se da distribuição do biopic realizado por Luca Guadagnino, deixando a obra à procura de um novo lar.
A luz da sala de projeção ainda banhava a cópia de trabalho quando Mike Hopkins, diretor do Prime Video e da Amazon MGM Studios, tomou a decisão. Tinha acabado de ver a montagem provisória de “Artificial”, o filme de Luca Guadagnino sobre a crise de liderança que em 2023 quase derrubou Sam Altman da OpenAI. Dias depois, comunicou ao realizador italiano e à sua equipa que a distribuidora não lançaria a longa-metragem. A notícia, avançada pela newsletter Puck e confirmada pela Variety, caiu como uma lâmina fria sobre um projeto praticamente concluído, com um elenco de estrelas e exibições-teste já realizadas.
O argumento, assinado pelo antigo guionista do “Saturday Night Live” Simon Rich, revisita os cinco dias vertiginosos em que Altman foi despedido pelo conselho de administração da OpenAI e, de seguida, reconduzido ao cargo de CEO. Andrew Garfield veste a pele do protagonista; Yura Borisov, revelação de “Anora”, interpreta Ilya Sutskever, o cofundador que liderou o motim; Monica Barbaro dá rosto a Mira Murati, então diretora técnica; e Ike Barinholtz encarna Elon Musk. Segundo fontes próximas da produção citadas pela imprensa norte-americana, o retrato de Altman destila uma ambição calculista — um “intrigante de duas caras”, escreveu a Puck, que afasta a OpenAI das suas origens filantrópicas para acumular poder. A versão final, relatam as mesmas fontes, é ainda mais sombria do que o guião inicial.
A retirada da Amazon ocorre num momento de entrelaçamento financeiro profundo entre as partes. Em fevereiro, a empresa de Jeff Bezos anunciou um investimento de 50 mil milhões de dólares na OpenAI, no quadro de uma parceria estratégica plurianual que inclui a expansão do uso da Amazon Web Services e o desenvolvimento conjunto de modelos de inteligência artificial. A coincidência temporal não passou despercebida a observadores em Lisboa e em São Paulo, que veem na decisão um sinal de que os interesses corporativos podem condicionar a circulação de narrativas incómodas. A própria Amazon, em comunicado, afirmou nutrir “o maior respeito e admiração” por Guadagnino e garantiu estar a colaborar na procura de um novo estúdio, sublinhando que o filme “seria mais bem servido” por outra distribuidora.
O episódio ecoa um clima mais amplo de cautela em Hollywood. A mesma Puck recorda que a Amazon investira 75 milhões de dólares na produção e promoção de um documentário sobre Melania Trump — valor que não se refletiu em bilheteira nem em crítica — e que tanto Bezos como Altman procuram cultivar boas relações com a administração Trump. Ao mesmo tempo, a Sony prepara “The Social Reckoning”, continuação de “A Rede Social” centrada em Mark Zuckerberg, e os advogados do estúdio já terão advertido a equipa de Aaron Sorkin: “tenham cuidado”. No Brasil, onde o cinema de Guadagnino conquistou uma base fiel desde “Chama-me pelo Teu Nome”, a notícia foi recebida com perplexidade por cinéfilos que acompanham a trajetória do realizador, sobretudo depois de colaborações anteriores com a Amazon em “Challengers” e “After the Hunt”.
Resta agora a imagem de uma obra órfã, com as latas de filme à espera de um novo comprador. “Artificial” existe, está montado, tem rostos conhecidos e um tema que arde no centro do debate contemporâneo sobre tecnologia e poder. Mas, por enquanto, a sala de projeção permanece vazia, e o retrato sombrio de Sam Altman só foi visto por um punhado de olhos autorizados — entre eles, os do homem que decidiu apagar o projetor.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A Amazon retirou o filme sobre Sam Altman depois de investir 50 mil milhões na OpenAI, levantando questões sobre um conflito de interesses. A decisão surgiu quando o longa-metragem, com um elenco de estrelas, estava quase concluído, alimentando especulações sobre pressões empresariais.
A Amazon decidiu não distribuir mais o filme sobre Sam Altman realizado por Luca Guadagnino depois de reforçar a parceria com a OpenAI. O filme, já concluído, será oferecido a outros distribuidores.
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