
O euro veste-se de cultura e natureza: as novas imagens que os cidadãos vão escolher
Dez propostas, entre ícones como Callas e Beethoven e a biodiversidade dos rios, serão submetidas a votação pública até setembro.
Naquela quinta-feira em Frankfurt, Christine Lagarde ergueu uma folha de papel onde se via, em tons lilases e contornos modernos, o perfil de Maria Callas. Não era uma cena de arquivo, mas o anúncio das novas faces do euro. “As notas pertencem-vos”, disse a presidente do Banco Central Europeu, ao lançar uma consulta pública inédita que dará a cada cidadão o poder de escolher o desenho das próximas notas — um gesto que, nas suas palavras, pretende fazer com que todos se revejam no dinheiro que passa de mão em mão. A mesma Lagarde, horas antes, garantira que não abandonaria o leme antes de 2027, enquanto “nuvens no horizonte” toldam a economia do continente.
Os dois grandes temas finalistas — “cultura europeia” e “rios e aves” — haviam já saído vencedores de uma primeira sondagem a mais de 365 mil pessoas. Na vertente cultural, cada valor facial presta homenagem a uma figura ilustre: Callas nos 5 euros, Beethoven nos 10, Marie Curie nos 20, Cervantes nos 50, Leonardo da Vinci nos 100 e Bertha von Suttner nos 200. No reverso, multiplicam-se cenas de festivais de coros, artistas de rua e bibliotecas, numa tentativa de capturar o espírito de um continente que se quer diverso. A segunda proposta é uma ode silenciosa: aves como o martim-pescador, a cegonha-branca ou o raro trepa-fragas espreitam das notas, ladeadas por cascatas e meandros de rios, enquanto no verso surgem edifícios como o Berlaymont, em Bruxelas, ou a sede do Parlamento, em Estrasburgo.
A votação decorre online até 21 de setembro e, segundo o presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, quanto maior a participação, “melhor as notas refletirão a diversidade e os valores da Europa”. A iniciativa chega num momento em que o BCE procura reforçar a identificação dos cidadãos com a moeda única, vinte anos após a primeira emissão. Os novos desenhos deverão ainda integrar elementos de segurança mais sofisticados e ser mais duráveis, reduzindo o impacto ambiental da produção. Para os deficientes visuais, estão previstos relevos que facilitem o reconhecimento tátil.
Nem todos, porém, aplaudem. Na imprensa alemã, há quem aponte a ausência de figuras da Europa de Leste entre os homenageados, um desequilíbrio que poderá acentuar fraturas simbólicas. Outros observadores estranham o ar “japonizante” de certas aves — o pisco-de-peito-ruivo sobre montanhas que mais lembram o Fuji do que os Alpes — ou a frieza gráfica de algumas composições, como o Beethoven de olhar demasiado severo na nota de dez euros da série G. A dificuldade de contentar 360 milhões de pessoas com gostos e memórias tão díspares faz da escolha um exercício de diplomacia visual.
Resta agora o gesto individual, quase íntimo, de clicar num ecrã e decidir se o euro terá o rosto de uma soprano ou o voo de uma ave. Entre as nuvens de que fala Lagarde, o martim-pescador azul-turquesa a fender a cascata na nota de dez euros talvez seja a imagem que melhor condensa o paradoxo do momento: uma beleza frágil e veloz, suspensa entre a água e o ar, à espera de um futuro ainda por desenhar.
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