
Novas tarifas dos EUA sobre trabalho forçado expõem divisão na resposta europeia
Enquanto a chefe da diplomacia criticou a justificação de Washington, a Comissão Europeia considerou as medidas compatíveis com o acordo comercial de 2025.
Os Estados Unidos impuseram, a 24 de julho de 2026, novas tarifas de 10% e 12,5% sobre bens de 60 parceiros comerciais, incluindo a União Europeia, o Brasil e a China. As taxas substituem uma tarifa global temporária de 10% que expirou nessa data e são justificadas por alegadas insuficiências no combate à importação de produtos fabricados com trabalho forçado. A medida insere‑se numa estratégia mais ampla da administração Trump para reduzir o défice comercial norte‑americano, após o Supremo Tribunal ter anulado, no início do ano, as chamadas “tarifas recíprocas” impostas com base em poderes de emergência.
A reação europeia revelou uma divisão interna. Em Manila, à margem de uma reunião da ASEAN, a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, classificou os novos direitos como uma “surpresa negativa” e rejeitou as acusações de laxismo. “Se compararmos as nossas leis laborais com as dos Estados Unidos, temos férias pagas e muito boas condições de trabalho”, afirmou, acrescentando que o bloco cumpriu o acordo comercial transatlântico de 2025 e exigirá esclarecimentos a Washington. Em contraste, um porta‑voz da Comissão Europeia acolheu com prudência as novas tarifas, sublinhando que, para a UE, estas não se acumulam às taxas aduaneiras de nação mais favorecida já existentes e que restabelecem isenções para produtos como cortiça e diamantes. Bruxelas vê o resultado como um “impulso positivo” para aprofundar as negociações de novas isenções.
A justificação de Washington foi igualmente contestada por outros parceiros. Austrália e Nova Zelândia criticaram as tarifas como injustificadas; o Japão manifestou “pesar”; a Noruega anunciou que não retaliaria; e a Suíça considerou as alegações incompreensíveis. O Brasil, atingido com uma taxa de 12,5% — que, em alguns casos, pode elevar a carga total para 37,5% —, viu analistas em Brasília e São Paulo questionarem a ausência de casos concretos na investigação norte‑americana. Setores historicamente associados a resgates de trabalho análogo à escravidão, como a pecuária e a cafeicultura, ficaram de fora das sobretaxas, sugerindo que a medida tem mais a ver com pressão comercial do que com direitos humanos.
O episódio tensiona o frágil equilíbrio alcançado em julho de 2025, quando a UE eliminou tarifas sobre produtos industriais americanos em troca de uma taxa de 15% sobre a maioria das suas exportações para os EUA. Enquanto a diplomacia europeia exige explicações, a Comissão procura preservar a estabilidade comercial. O próximo passo será a resposta de Washington aos pedidos de clarificação e o desenrolar das negociações para isenções adicionais, num contexto em que o comércio transatlântico anual ultrapassa 1,8 biliões de dólares.
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