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Sociedade & Culturasexta-feira, 26 de junho de 2026

No escuro da tenda, a longa fila que foge do prazo de 30 de junho

Com o aproximar do dia 30 de junho, data-limite imposta por grupos anti-imigração, acampamentos improvisados em Durban e na Cidade do Cabo enchem-se de malawianos, zimbabueanos e moçambicanos que tentam regressar a casa.

No interior da tenda principal do antigo autocine de Durban, transformado em centro de processamento, a luz do sol mal penetra. Só quando os olhos se habituam à escuridão se distinguem, no chão, corpos adormecidos entre malas e trouxas de roupa. Uma fila compacta de centenas de homens avança centímetro a centímetro, em silêncio. Lá fora, as tendas brancas alinham-se como uma réplica precária do estádio Moses Mabhida, erguido para o Mundial de 2010, quando o país se apresentou ao mundo com uma cultura de boas-vindas. Agora, o mesmo recinto acolhe milhares de cidadãos africanos que tentam partir antes do prazo de 30 de junho, fixado por grupos como o March and March para que todos os estrangeiros indocumentados abandonem a África do Sul.

O ultimato, difundido nas redes sociais e em marchas de rua, desencadeou uma operação de repatriação em massa. Só do Malawi, mais de 15 mil pessoas já foram processadas, segundo a ministra da Justiça sul-africana, Mmamoloko Kubayi. No posto fronteiriço de Beitbridge, 112 autocarros transportaram 6.709 malawianos e 26 levaram 1.521 zimbabueanos de volta aos seus países. Moçambique também repatriou centenas de concidadãos, depois de cinco mortes confirmadas pelas autoridades de Maputo. Antonio Njive, que trabalhava em biscates desde 2019, viu a casa ser incendiada e partiu sem roupa. “Tudo ardeu”, disse por telefone. Leanne Sefu, requerente de asilo da República Democrática do Congo que chegou à África do Sul aos três anos, acampa agora em frente aos serviços de imigração. “Voltar para o Congo é voltar para a morte”, afirmou, sentada num colchão no passeio.

A crise expõe a tensão entre as fronteiras herdadas da colonização e a realidade da mobilidade africana. “As fronteiras que hoje definem quem pertence e quem não pertence nunca foram organicamente nossas”, escreveu o colunista ganês Seidu Agongo, recordando que, antes da partilha colonial, os africanos circulavam por territórios vastos, unidos por cultura e comércio. Em Joanesburgo, o presidente do grupo MTN, Mcebisi Jonas, antigo vice-ministro das Finanças, fez uma intervenção contundente no funeral de um ativista zimbabueano: “Os estrangeiros podem ir-se embora amanhã — a desigualdade ficará connosco. O desemprego ficará connosco. A corrupção policial ficará connosco.” Jonas atribuiu a violência à falência do Estado e à manipulação política de identidades étnicas, que descreveu como “produto dos poderes coloniais”. Em Maputo, a morte de cinco moçambicanos reacendeu o debate sobre a vulnerabilidade dos trabalhadores migrantes na principal economia do continente. Em Lisboa, analistas sublinham que a África do Sul, apesar do desemprego de 32%, continua a atrair mão de obra de países vizinhos, num fluxo que a Área de Comércio Livre Continental Africana pretende, precisamente, transformar em integração económica e não em expulsão.

A poucos dias do prazo, a incerteza é a única certeza. A polícia prometeu um dispositivo reforçado, e o Presidente Cyril Ramaphosa garantiu que “as forças de segurança estão prontas”. Mas o March and March, cujo líder Ngizwe Mchunu foi recentemente condenado por discurso de ódio, avisou que não se responsabiliza pelo que acontecer no dia 30. No acampamento de Durban, voluntários distribuem refeições quentes, garrafas de água e brinquedos para as crianças. No chão, entre pratos de cartão e fraldas, alguém perdeu — ou atirou fora — uma cópia de uma autorização de residência. O documento que durante anos garantiu o direito de estar ali jaz agora entre os detritos, à espera de ser varrido pelo vento.

Como a mesma história é contada em outros lugares.

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Imprensa africana subsaarianaImprensa europeia continental
Imprensa africana subsaariana/ Anglófona
IndignaçãoAlarmeVitimismo

O ultimato de 30 de junho lançado por grupos de vigilantes desencadeou uma crise humanitária, com milhares de migrantes africanos a fugir da África do Sul com medo. Esta campanha xenófoba trai a solidariedade pan-africana e ignora a interdependência do continente; a prosperidade sul-africana assenta no resto de África. As filas de malawianos à espera de repatriação e os zimbabueanos a dormir nos passeios são um capítulo vergonhoso.

Imprensa europeia continental/ DACH+
AlarmeDistanciamento

Em Durban, um movimento xenófobo fixou um prazo para estrangeiros indocumentados, provocando pânico e um êxodo em massa. O ambiente na colina de Umlazi está tenso, com manifestantes em trajes tradicionais e bandeiras nacionais, enquanto milhares procuram desesperadamente uma saída do país.

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No escuro da tenda, a longa fila que foge do prazo de 30 de junho

Com o aproximar do dia 30 de junho, data-limite imposta por grupos anti-imigração, acampamentos improvisados em Durban e na Cidade do Cabo enchem-se de malawianos, zimbabueanos e moçambicanos que tentam regressar a casa.

No interior da tenda principal do antigo autocine de Durban, transformado em centro de processamento, a luz do sol mal penetra. Só quando os olhos se habituam à escuridão se distinguem, no chão, corpos adormecidos entre malas e trouxas de roupa. Uma fila compacta de centenas de homens avança centímetro a centímetro, em silêncio. Lá fora, as tendas brancas alinham-se como uma réplica precária do estádio Moses Mabhida, erguido para o Mundial de 2010, quando o país se apresentou ao mundo com uma cultura de boas-vindas. Agora, o mesmo recinto acolhe milhares de cidadãos africanos que tentam partir antes do prazo de 30 de junho, fixado por grupos como o March and March para que todos os estrangeiros indocumentados abandonem a África do Sul.

O ultimato, difundido nas redes sociais e em marchas de rua, desencadeou uma operação de repatriação em massa. Só do Malawi, mais de 15 mil pessoas já foram processadas, segundo a ministra da Justiça sul-africana, Mmamoloko Kubayi. No posto fronteiriço de Beitbridge, 112 autocarros transportaram 6.709 malawianos e 26 levaram 1.521 zimbabueanos de volta aos seus países. Moçambique também repatriou centenas de concidadãos, depois de cinco mortes confirmadas pelas autoridades de Maputo. Antonio Njive, que trabalhava em biscates desde 2019, viu a casa ser incendiada e partiu sem roupa. “Tudo ardeu”, disse por telefone. Leanne Sefu, requerente de asilo da República Democrática do Congo que chegou à África do Sul aos três anos, acampa agora em frente aos serviços de imigração. “Voltar para o Congo é voltar para a morte”, afirmou, sentada num colchão no passeio.

A crise expõe a tensão entre as fronteiras herdadas da colonização e a realidade da mobilidade africana. “As fronteiras que hoje definem quem pertence e quem não pertence nunca foram organicamente nossas”, escreveu o colunista ganês Seidu Agongo, recordando que, antes da partilha colonial, os africanos circulavam por territórios vastos, unidos por cultura e comércio. Em Joanesburgo, o presidente do grupo MTN, Mcebisi Jonas, antigo vice-ministro das Finanças, fez uma intervenção contundente no funeral de um ativista zimbabueano: “Os estrangeiros podem ir-se embora amanhã — a desigualdade ficará connosco. O desemprego ficará connosco. A corrupção policial ficará connosco.” Jonas atribuiu a violência à falência do Estado e à manipulação política de identidades étnicas, que descreveu como “produto dos poderes coloniais”. Em Maputo, a morte de cinco moçambicanos reacendeu o debate sobre a vulnerabilidade dos trabalhadores migrantes na principal economia do continente. Em Lisboa, analistas sublinham que a África do Sul, apesar do desemprego de 32%, continua a atrair mão de obra de países vizinhos, num fluxo que a Área de Comércio Livre Continental Africana pretende, precisamente, transformar em integração económica e não em expulsão.

A poucos dias do prazo, a incerteza é a única certeza. A polícia prometeu um dispositivo reforçado, e o Presidente Cyril Ramaphosa garantiu que “as forças de segurança estão prontas”. Mas o March and March, cujo líder Ngizwe Mchunu foi recentemente condenado por discurso de ódio, avisou que não se responsabiliza pelo que acontecer no dia 30. No acampamento de Durban, voluntários distribuem refeições quentes, garrafas de água e brinquedos para as crianças. No chão, entre pratos de cartão e fraldas, alguém perdeu — ou atirou fora — uma cópia de uma autorização de residência. O documento que durante anos garantiu o direito de estar ali jaz agora entre os detritos, à espera de ser varrido pelo vento.

Divergência das fontes

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34%Média

Quanto as fontes relatam os mesmos fatos de maneira diferente.

Como se dividem

Neutro22%
Crítico78%

Como a mesma história é contada em outros lugares.

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Imprensa africana subsaarianaImprensa europeia continental
Imprensa africana subsaariana/ Anglófona
IndignaçãoAlarmeVitimismo

O ultimato de 30 de junho lançado por grupos de vigilantes desencadeou uma crise humanitária, com milhares de migrantes africanos a fugir da África do Sul com medo. Esta campanha xenófoba trai a solidariedade pan-africana e ignora a interdependência do continente; a prosperidade sul-africana assenta no resto de África. As filas de malawianos à espera de repatriação e os zimbabueanos a dormir nos passeios são um capítulo vergonhoso.

Imprensa europeia continental/ DACH+
AlarmeDistanciamento

Em Durban, um movimento xenófobo fixou um prazo para estrangeiros indocumentados, provocando pânico e um êxodo em massa. O ambiente na colina de Umlazi está tenso, com manifestantes em trajes tradicionais e bandeiras nacionais, enquanto milhares procuram desesperadamente uma saída do país.

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