
Mancha fria no Atlântico e El Niño intenso acendem alertas sobre pontos de inflexão climática
Enquanto uma anomalia de arrefecimento no Atlântico Norte sugere o enfraquecimento da circulação oceânica, o regresso de um El Niño forte ameaça agravar extremos meteorológicos e pressionar setores como o lácteo no Brasil.
Uma vasta região oceânica a sudeste da Gronelândia desafia a lógica do aquecimento global e intriga há décadas a comunidade científica. Conhecida como a “mancha fria” ou “bolha de arrefecimento”, esta porção do Atlântico Norte registou uma queda de temperatura de cerca de 1 °C desde 1900, contrastando com o aquecimento acelerado do resto do planeta. Um novo estudo, citado por várias publicações internacionais, aponta agora para uma explicação que vai além das alterações atmosféricas: o fenómeno estará diretamente ligado ao enfraquecimento da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC), um sistema de correntes que funciona como uma correia transportadora de calor entre os trópicos e o hemisfério norte. O degelo acelerado da Gronelândia estará a libertar quantidades crescentes de água doce, reduzindo a densidade da água superficial e travando o afundamento que alimenta essa circulação vital. Para os cientistas, a mancha fria é um sinal preocupante de que o mundo se aproxima de um ponto de inflexão climática com consequências potencialmente catastróficas.
O arrefecimento localizado contrasta de forma inquietante com o aquecimento generalizado dos oceanos. Dados recentes do Earth System Science Data revelam que a temperatura média global já atingiu 1,37 °C acima dos níveis pré-industriais, perigosamente próxima do limite de 1,5 °C estabelecido no Acordo de Paris. Em 2025, os oceanos registaram 65 dias com ondas de calor marinhas, um indicador da aceleração das alterações climáticas causadas sobretudo pela queima de combustíveis fósseis. A coexistência de uma bolha fria persistente com um planeta em ebulição ilustra a complexidade das respostas do sistema climático à acumulação de gases com efeito de estufa. Se a AMOC continuar a perder força, os impactos podem propagar-se muito além do Atlântico Norte, alterando regimes de monções na África Ocidental, intensificando secas no Nordeste brasileiro e submergindo ainda mais as costas do litoral atlântico.
Enquanto o Atlântico emite este sinal de alarme, o Pacífico prepara-se para um episódio de El Niño que as projeções indicam poder ser de forte intensidade. A NOAA confirmou oficialmente o regresso do fenómeno e atribui uma probabilidade de 60% a 63% de que atinja uma magnitude histórica até ao final do ano ou na temporada 2026/27. Na perspetiva de Brasília, o alerta estende-se ao setor agropecuário: embora a relação direta com a produção leiteira total não seja linear, os efeitos sobre a qualidade das pastagens, a disponibilidade de ração, a sanidade animal e os custos de produção podem pressionar os preços do leite nos próximos meses. Observadores em Lisboa e em Luanda acompanham com igual apreensão as projeções, pois um El Niño intenso costuma agravar secas no sul de Angola e em Moçambique, ao mesmo tempo que pode trazer inundações a outras regiões da África Austral e Oriental, comprometendo a segurança alimentar de milhões de pessoas.
A convergência destes dois fenómenos — uma AMOC enfraquecida e um El Niño robusto — desenha um cenário de riscos climáticos sobrepostos para o mundo lusófono. Na Europa, um colapso parcial da circulação atlântica poderia, paradoxalmente, arrefecer o clima de Portugal e Espanha, mas também desencadear tempestades mais severas e uma subida acelerada do nível do mar na fachada atlântica. Para o Brasil, a combinação de um Atlântico Norte anómalo com um Pacífico aquecido pode reconfigurar os padrões de chuva, afetando desde a agricultura familiar no semiárido até a geração hidroelétrica. As nações africanas de língua portuguesa, já vulneráveis a choques climáticos, enfrentariam uma dupla exposição a secas e ciclones tropicais mais intensos. A mensagem que emerge dos novos estudos é inequívoca: os sinais de instabilidade nos dois grandes oceanos reforçam a urgência de cortes profundos nas emissões e de estratégias de adaptação coordenadas entre os países que partilham o Atlântico e as suas consequências.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
2 grupos editoriais · 4 idiomas
No Atlântico Norte, uma anomalia fria persistente intriga cientistas, pois esfria enquanto o resto do oceano aquece. Pesquisas recentes ligam o fenômeno ao enfraquecimento de uma corrente oceânica, com potenciais impactos climáticos globais. Enquanto isso, um El Niño forte é previsto, gerando preocupações para a produção de leite na América Latina.
A mysterious cold patch in the North Atlantic has scientists alarmed, as it could be a sign that a major ocean current is collapsing. This would have catastrophic consequences for global weather patterns, bringing extreme heat and cold to different regions. The findings urge immediate action to slow climate change.
Artigos relacionados
Brasil goleia Haiti por 3 a 0 com duplo de Matheus Cunha e assume liderança do Grupo C
6 idiomas · 29 veículos
Crime e DesastresColisão de trens de carga em Munique deixa um morto e derruba vagões
10 idiomas · 17 veículos
EsporteMundial 2026: Almirón é o primeiro expulso por cobrir a boca em novo regulamento
7 idiomas · 23 veículos