
Irão retoma exportações de petróleo pelo Estreito de Ormuz após bloqueio naval dos EUA
O fim do cerco americano permite a saída dos primeiros navios-tanque iranianos em dois meses, enquanto a Agência Internacional de Energia contabiliza uma queda de um milhão de barris diários na produção de Teerão.
O movimento mais simbólico da trégua entre Washington e Teerão ocorreu no mar: dois superpetroleiros da National Iranian Tanker Company, Diona e Hero 2, cruzaram a linha de bloqueio naval imposta pelos Estados Unidos no Estreito de Ormuz, carregando 3,8 milhões de barris de crude. Dados de rastreio digital confirmados por imagens de satélite, divulgados pelo site Tanker Trackers e repercutidos pela Al Jazeera e pela Sky News Arabia, mostram que as embarcações aguardavam autorização do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica para atravessar o ponto mais vigiado do Golfo Pérsico. A movimentação ocorreu a poucos dias do início das negociações para um acordo definitivo, previstas para sexta-feira no resort suíço de Bürgenstock, e assinala o regresso das primeiras exportações iranianas desde meados de abril.
A quebra anterior foi profunda. A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que a produção diária de crude do Irão caiu de 3,36 milhões de barris em abril para 2,3 milhões em maio — uma perda superior a um milhão de barris por dia —, enquanto mais de 60 milhões de barris ficaram retidos em armazenagem flutuante e terrestre. O bloqueio naval, iniciado em abril, cortou quase totalmente as vendas externas do país. A reabertura do estreito, ainda que parcial, já pressionou os preços globais em baixa, mas a retoma efetiva dependerá da evolução das conversações sobre o programa nuclear iraniano e o levantamento de sanções.
Paralelamente, a Rússia enfrenta uma dinâmica distinta. Em maio, o volume total de exportações de petróleo e derivados manteve-se estável em 7,35 milhões de barris por dia, mas a alteração do mix — mais crude e menos produtos refinados — reduziu as receitas em 710 milhões de dólares face a abril, para 20,8 mil milhões, segundo a AIE. Apesar da queda, o valor permanece próximo de máximos históricos e 8,18 mil milhões acima do registado um ano antes. A produção russa, contudo, contraiu 230 mil barris diários, refletindo os constrangimentos das sanções ocidentais e os cortes coordenados com a OPEP+.
A reconfiguração do tabuleiro energético tem leitura distinta consoante a latitude. Em Brasília, a perspetiva de normalização das exportações iranianas é observada com cautela: um eventual aumento da oferta pode deprimir os preços do Brent, afetando a rentabilidade do pré-sal e os planos de expansão da Petrobras. Em Lisboa, analistas sublinham que a redução do prémio de risco no Golfo alivia a fatura energética europeia, mas a volatilidade persiste enquanto Israel mantiver ataques no sul do Líbano. Para os produtores africanos de língua portuguesa, como Angola, a reentrada do crude iraniano no mercado representa um concorrente adicional num contexto de procura global ainda incerta.
O controlo do Estreito de Ormuz continua a ser o trunfo estratégico de Teerão. A agência Reuters notou que o acordo temporário inclui o compromisso iraniano de manter a via navegável aberta, mas a decisão final permanece nas mãos de Teerão, como sublinha a imprensa iraniana. A expectativa de um entendimento mais amplo alimenta a possibilidade de a produção petrolífera iraniana retomar uma trajetória ascendente, mas a fragilidade do cessar-fogo e a complexidade das conversações sobre o programa nuclear deixam o mercado em suspenso. A travessia dos petroleiros é, por ora, um sinal de distensão — mas não uma garantia de estabilidade duradoura.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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A produção diária de petróleo iraniano caiu mais de um milhão de barris depois que o bloqueio naval dos EUA interrompeu totalmente as exportações. Com o bloqueio suspenso, os petroleiros retomaram os movimentos e um acordo de paz poderia colocar a produção em trajetória ascendente, segundo dados da agência de energia.
As receitas das exportações de petróleo russo caíram US$ 710 milhões em maio, com a redução dos embarques de derivados, enquanto as exportações de petróleo bruto aumentaram. O total diário permaneceu estável em 7,35 milhões de barris, e as receitas continuaram mais de US$ 8 bilhões acima do nível do ano anterior.
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