
Invasões silenciosas: de ostras suecas a mexilhões brasileiros, ecossistemas costeiros sob pressão
Do 'falukorv do mar' na Suécia aos microplásticos nos moluscos do Rio, passando por peixes mordedores em Maiorca, as zonas costeiras enfrentam ameaças que exigem respostas integradas.
Na costa oeste da Suécia, uma invasão silenciosa está a transformar-se numa oportunidade gastronómica. O Magallana gigas, ostra do Pacífico ou japonesa, surgiu em 2007 e rapidamente se espalhou pelos recifes de Bohuslän, gerando alarme entre ambientalistas. Contudo, estudos recentes indicam que a espécie não está a deslocar as ostras nativas, pois ocupam habitats distintos. Åsa Strand, especialista em conservação marinha, compara o molusco ao 'falukorv', a salsicha tradicional sueca, sugerindo que pode tornar-se um recurso abundante e acessível. As autoridades locais investem agora em formas de aproveitar comercialmente este invasor, transformando uma ameaça ecológica em potencial económico.
No Brasil, outro molusco filtrador está no centro das atenções, mas por razões opostas. Investigadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) publicaram um estudo que revela como os mexilhões acumulam microplásticos e os transmitem aos consumidores humanos. Incapazes de distinguir microalgas de partículas plásticas, estes bivalves tornam-se vetores de poluição. A descoberta, divulgada na revista Ocean and Coastal Research, acende um alerta para a segurança alimentar nas comunidades costeiras que dependem destes frutos do mar. Em Portugal, onde o consumo de mexilhão é igualmente enraizado, observadores notam que a contaminação por microplásticos é uma preocupação crescente, exigindo monitorização e políticas de redução de resíduos.
Enquanto isso, no Mediterrâneo, os banhistas enfrentam incómodos mais imediatos. Na praia de Es Comú, em Maiorca, acumulações de algas marinhas em decomposição geram mau cheiro e dificultam o acesso à água, irritando turistas. Noutra zona da ilha, em Cala Major, peixes como a dourada ou o sargo têm mordido banhistas, com relatos de até 15 casos por dia no verão passado. Cientistas explicam que o comportamento agressivo pode estar ligado à procura de alimento em águas mais quentes. Já na Suécia, uma tartaruga invasora foi avistada num lago em Delsjön, capaz de transmitir doenças graves, enquanto em Gislaved, escaravelhos de jardim mobilizam moradores que recorrem a baldes amarelos como armadilhas — um método caseiro que esgotou o stock nas lojas locais.
Estes episódios, dispersos geograficamente, partilham um fio condutor: a pressão sobre ecossistemas costeiros e de água doce, agravada por alterações climáticas, poluição e globalização do comércio. Na perspetiva de Brasília, o estudo da Unirio reforça a urgência de políticas que limitem o plástico nos oceanos. Em Lisboa, a experiência sueca com a ostra do Pacífico ecoa debates sobre a gestão de espécies invasoras como a amêijoa-asiática, que também coloniza estuários portugueses. A lição é que a natureza não respeita fronteiras e as soluções exigem cooperação entre ciência, governos e comunidades. Transformar invasores em recursos, como sugere a metáfora do 'falukorv', pode ser um caminho, mas só com vigilância constante para evitar que a próxima invasão silenciosa se torne irreversível.
Como a mesma história é contada em outros lugares.
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As costas europeias estão a enfrentar uma vaga de invasões biológicas e incómodos ambientais. De ostras afiadas que cortam os pés dos banhistas a peixes que mordem e algas apodrecidas, turistas e moradores estão alarmados. Contudo, alguns veem oportunidade nos invasores, como transformar a ostra-do-pacífico num recurso culinário.
Um estudo brasileiro alerta que os mexilhões podem acumular microplásticos e transmiti-los aos humanos. Esses moluscos filtradores não conseguem distinguir entre alimento natural e poluentes, levantando preocupações sobre segurança alimentar e poluição marinha. A pesquisa destaca uma ameaça à saúde a longo prazo pela contaminação plástica nos ecossistemas costeiros.
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