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Sociedade & Culturasexta-feira, 24 de julho de 2026

De Superman a baratas: a juventude indiana protesta com sátira e tecnologia

Milhares de jovens indianos exigem a demissão do ministro da Educação após fugas de exames, combinando memes, aplicações Bluetooth e uma greve de fome de 26 dias.

Na manhã de um protesto em Mumbai, Neerav, 21 anos, vestiu um fato de Superman feito por ele próprio. Não era uma fantasia de festa, mas uma armadura contra o medo e um símbolo de esperança para uma geração que, nos últimos dias, tomou as ruas da Índia. “Sei que o Superman questionaria a autoridade do governo e as mortes de estudantes”, disse ao canal australiano ABC. O gesto insólito encapsula o espírito de um movimento que, nascido da sátira, uniu milhares de jovens numa exigência comum: a demissão do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, responsabilizado pela fuga de provas do exame nacional de acesso a cursos médicos (NEET), que afetou mais de dois milhões de estudantes e, segundo a imprensa local, levou ao suicídio de pelo menos vinte candidatos.

A revolta começou em junho, quando o Cockroach Janta Party (CJP) – ou Partido Popular Barata, nome irónico inspirado num comentário do presidente do Supremo Tribunal sobre jovens “baratas” – montou um acampamento permanente em Jantar Mantar, o local oficial de protestos em Nova Deli. A designação satírica tornou-se marca de uma geração que, longe dos estereótipos de apatia, recorreu ao humor ácido e à cultura de memes para ganhar as redes sociais. A indignação ganhou escala quando o ativista e educador Sonam Wangchuk, conhecido pela defesa de causas ambientais e sociais, iniciou uma greve de fome de 26 dias em solidariedade. A remoção forçada de Wangchuk do local pelas autoridades, justificada por preocupações de saúde, e a violenta carga policial sobre a marcha ao Parlamento a 20 de julho – com gás lacrimogéneo, bastões e alegadas balas de borracha – incendiaram a mobilização, que se alastrou a Calcutá, Mumbai e outras cidades.

Num país onde os cortes de internet são frequentes durante protestos – a Índia foi o segundo país do mundo com mais encerramentos em 2025, segundo a organização Access Now –, os manifestantes revelaram uma notável capacidade de adaptação. Com os serviços móveis suspensos num raio de 1,5 quilómetros em torno do local de protesto, muitos recorreram ao Bitchat, uma aplicação de mensagens descentralizada que utiliza Bluetooth e não exige números de telefone. “Pensam que somos burros, mas somos bastante inteligentes”, afirmou à AFP o estudante Kumar Shalabh, de 21 anos. O criador da aplicação, o antigo executivo do Twitter Jack Dorsey, denunciou que o governo indiano exigiu a remoção do código-fonte do Bitchat de plataformas como o GitHub. A amplitude do movimento foi captada por meios de todo o mundo, incluindo o diário brasileiro Valor Econômico, que destacou as negociações como o maior desafio político ao primeiro-ministro Narendra Modi desde a sua chegada ao poder.

A resposta governamental oscilou entre a repressão e a concessão. Na mesma semana, Modi divulgou um vídeo no Instagram – onde ganhou um milhão de seguidores numa noite – anunciando tribunais acelerados e penas mais duras para os responsáveis pelas fugas, enquanto o seu gabinete aprovava reformas na Agência Nacional de Testes (NTA), que despediu 47 funcionários. As negociações entre o CJP e ministros levaram à suspensão da greve de fome de Wangchuk, na madrugada de 24 de julho, com a garantia de que não seriam registadas queixas contra manifestantes pacíficos e de que o Parlamento debateria reformas educativas. Contudo, o partido manteve a exigência da demissão de Pradhan e ameaçou com uma mobilização nacional ainda maior. “Isto é um barril de pólvora”, avisou o porta-voz Ashutosh Ranka. Enquanto os jovens se fotografavam com jhumkas e “espinha” em vídeos de protesto, o movimento das baratas, nascido do sarcasmo, consolidava-se como um dos maiores desafios à governação de Modi, lembrando que, para esta geração, a resiliência é tanto ferramenta como símbolo.

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sexta-feira, 24 de julho de 2026

De Superman a baratas: a juventude indiana protesta com sátira e tecnologia

Milhares de jovens indianos exigem a demissão do ministro da Educação após fugas de exames, combinando memes, aplicações Bluetooth e uma greve de fome de 26 dias.

Na manhã de um protesto em Mumbai, Neerav, 21 anos, vestiu um fato de Superman feito por ele próprio. Não era uma fantasia de festa, mas uma armadura contra o medo e um símbolo de esperança para uma geração que, nos últimos dias, tomou as ruas da Índia. “Sei que o Superman questionaria a autoridade do governo e as mortes de estudantes”, disse ao canal australiano ABC. O gesto insólito encapsula o espírito de um movimento que, nascido da sátira, uniu milhares de jovens numa exigência comum: a demissão do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, responsabilizado pela fuga de provas do exame nacional de acesso a cursos médicos (NEET), que afetou mais de dois milhões de estudantes e, segundo a imprensa local, levou ao suicídio de pelo menos vinte candidatos.

A revolta começou em junho, quando o Cockroach Janta Party (CJP) – ou Partido Popular Barata, nome irónico inspirado num comentário do presidente do Supremo Tribunal sobre jovens “baratas” – montou um acampamento permanente em Jantar Mantar, o local oficial de protestos em Nova Deli. A designação satírica tornou-se marca de uma geração que, longe dos estereótipos de apatia, recorreu ao humor ácido e à cultura de memes para ganhar as redes sociais. A indignação ganhou escala quando o ativista e educador Sonam Wangchuk, conhecido pela defesa de causas ambientais e sociais, iniciou uma greve de fome de 26 dias em solidariedade. A remoção forçada de Wangchuk do local pelas autoridades, justificada por preocupações de saúde, e a violenta carga policial sobre a marcha ao Parlamento a 20 de julho – com gás lacrimogéneo, bastões e alegadas balas de borracha – incendiaram a mobilização, que se alastrou a Calcutá, Mumbai e outras cidades.

Num país onde os cortes de internet são frequentes durante protestos – a Índia foi o segundo país do mundo com mais encerramentos em 2025, segundo a organização Access Now –, os manifestantes revelaram uma notável capacidade de adaptação. Com os serviços móveis suspensos num raio de 1,5 quilómetros em torno do local de protesto, muitos recorreram ao Bitchat, uma aplicação de mensagens descentralizada que utiliza Bluetooth e não exige números de telefone. “Pensam que somos burros, mas somos bastante inteligentes”, afirmou à AFP o estudante Kumar Shalabh, de 21 anos. O criador da aplicação, o antigo executivo do Twitter Jack Dorsey, denunciou que o governo indiano exigiu a remoção do código-fonte do Bitchat de plataformas como o GitHub. A amplitude do movimento foi captada por meios de todo o mundo, incluindo o diário brasileiro Valor Econômico, que destacou as negociações como o maior desafio político ao primeiro-ministro Narendra Modi desde a sua chegada ao poder.

A resposta governamental oscilou entre a repressão e a concessão. Na mesma semana, Modi divulgou um vídeo no Instagram – onde ganhou um milhão de seguidores numa noite – anunciando tribunais acelerados e penas mais duras para os responsáveis pelas fugas, enquanto o seu gabinete aprovava reformas na Agência Nacional de Testes (NTA), que despediu 47 funcionários. As negociações entre o CJP e ministros levaram à suspensão da greve de fome de Wangchuk, na madrugada de 24 de julho, com a garantia de que não seriam registadas queixas contra manifestantes pacíficos e de que o Parlamento debateria reformas educativas. Contudo, o partido manteve a exigência da demissão de Pradhan e ameaçou com uma mobilização nacional ainda maior. “Isto é um barril de pólvora”, avisou o porta-voz Ashutosh Ranka. Enquanto os jovens se fotografavam com jhumkas e “espinha” em vídeos de protesto, o movimento das baratas, nascido do sarcasmo, consolidava-se como um dos maiores desafios à governação de Modi, lembrando que, para esta geração, a resiliência é tanto ferramenta como símbolo.

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