
Entre sapatilhas e memória, o Peru das Fiestas Patrias redescobre-se em viagem
Quase dois milhões de peruanos percorrem o país durante o feriado prolongado, equilibrando o conforto prático do calçado urbano com o mergulho na história e na paisagem que os filmes e as celebrações gratuitas reavivam.
Na noite de 26 de julho, a fachada do Gran Hotel Bolívar, em Lima, ilumina-se com projeções de luz e a música peruana ressoa pela Plaza San Martín. O espetáculo «Balcones Patrios», organizado pela municipalidade, atrai famílias que buscam celebrar os 205 anos da independência sem sair da capital. A poucos quilómetros dali, no Multiespacio Costa 21, a Orquestra Sinfónica Nacional oferece uma serenata ao país com um repertório que atravessa a diversidade cultural do território. São cenas que, em julho de 2026, se repetem por todo o Peru, tecendo uma celebração que vai muito além do desfile militar e do mensaje presidencial.
O feriado prolongado das Fiestas Patrias é, para muitos, um convite a revisitar a própria identidade. Numa reflexão partilhada nas páginas de opinião, uma reitora universitária recorda que a peruanidade é «uma maneira de nos reconhecermos como parte de uma comunidade diversa», feita de línguas, memórias e modos de olhar o mundo que se manifestam tanto nas cidades como nas comunidades amazónicas e andinas. Essa pluralidade transborda também para o ecrã: durante os dias de descanso, serviços de streaming e ciclos de cinema gratuitos no Ministério da Cultura exibem obras como «Gloria del Pacífico» ou «Los otros libertadores», narrativas que, sem saírem de casa, permitem a milhares de famílias percorrer episódios e personagens que ajudaram a construir o país.
O movimento turístico confirma o ímpeto de descobrir o Perú com os próprios pés. De acordo com projeções do Mincetur, cerca de 1,9 milhões de pessoas viajarão entre 25 e 29 de julho, gerando um impacto económico estimado em 254 milhões de dólares. Cusco, Arequipa e Ica lideram as preferências, mas começam a ganhar terreno localidades menos exploradas, como Pichari, no Vraem ayacuchano, onde cataratas e cafezais ainda conservam um caráter «virgem», no dizer de uma operadora turística. Dois em cada três viajantes regressam a destinos que já conhecem e amam; um terço arrisca-se pela primeira vez a um mapa novo, atraídos sobretudo pela variedade de atrativos naturais e pela história.
Essa redescoberta itinerante vem acompanhada de uma atenção renovada ao conforto. Em reportagens que circulam de Lima a Buenos Aires, especialistas recomendam as zapatilhas de running como a opção mais versátil para as longas caminhadas urbanas, por oferecerem o equilíbrio ideal entre amortecimento, leveza e estabilidade. As de trekking, por sua vez, são reservadas para as superfícies irregulares dos sítios arqueológicos e das trilhas andinas. A moda, sem abdicar do estilo, adapta-se: camisas de linho para os almoços em família, polos de algodão para as tardes de museu, calçado de design limpo que transita sem ruído entre o informal e o casual. Uma marca peruana, a New Athletic, lança precisamente uma coleção de ténis urbanos pensada para acompanhar «diferentes estilos de vida e momentos do dia» durante o feriado.
Ao cair da noite, com os pés já menos cansados, uma família reúne-se em casa para ver «El último bastión» e conversar sobre o país que desejam. Lá fora, o som da banda filarmónica mistura-se com o cheiro dos anticuchos. Como escreveu a reitora, o futuro do Peru «não é um lugar distante aonde um dia chegaremos. Começa hoje, em cada decisão que fortalece a confiança, abre uma oportunidade ou aproxima quem pensa diferente». Talvez por isso, entre uma zapatilha e um episódio histórico, a pátria se vá fazendo a cada passo.
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