
Dois silêncios num fim de semana: o Egito perde Hani Shenouda e a Bahia despede-se de João Sanches
Num intervalo de horas, o mundo da cultura viu apagar-se a batida eletrónica que revolucionou a canção árabe e a voz dramatúrgica que reinventou o teatro baiano.
Na noite em que o saudaram pela última vez em palco, Ahmed Adaweya levantou-se e, com a voz já gasta, lançou os versos que o próprio Hani Shenouda lhe dera décadas antes: “Zahma ya donia zahma”. Foi em Riade, num espetáculo de homenagem organizado pela Autoridade Geral de Entretenimento saudita, e o momento, descrito por quem lá esteve como “tocante”, uniu o cantor popular a Mostafa Hagag para revisitar uma canção que há muito deixara de ser apenas um êxito de rua para se tornar memória coletiva do Egito. Shenouda, então com 83 anos, assistia da plateia. Menos de dois anos depois, na segunda-feira, o maestro que eletrificou a música egípcia calou-se de vez, vencido por uma crise súbita de saúde.
Nascido em Tanta, no delta do Nilo, em 1943, Hani Shenouda formou-se no Conservatório do Cairo e começou por ser o homem que trazia para o estúdio sons que o mundo árabe ainda não conhecia: o órgão elétrico, a guitarra, camadas de sintetizadores que, nas suas mãos, não descaracterizavam a melodia oriental, mas davam-lhe uma pulsação urbana. Em 1977, com o incentivo do escritor Naguib Mahfouz, fundou a banda “Al-Masryeen” (Os Egípcios), laboratório de uma canção jovem e coletiva que marcaria gerações com temas como “Ma tahseboush ya banat”. A partir dali, a sua trajetória confundiu-se com a de uma constelação de vozes que ele próprio ajudou a descobrir: foi o primeiro a gravar Mohamed Mounir, a quem entregou o álbum “Bentweled”, e o primeiro a apostar num adolescente de Port Said chamado Amr Diab, para quem compôs “El Zaman” e os alicerces do disco “Ya Taree”. A imprensa egípcia chamou-lhe “padrinho das estrelas”, e a crítica musical do Cairo sublinha que, sem ele, a paisagem sonora do cinema egípcio — de “Al-Harif” a “Shams El-Zanaty”, mais de 150 bandas sonoras — teria permanecido ancorada num classicismo orquestral que o país já começava a sentir como distante.
A notícia da sua morte foi recebida com um luto imediato que extravasou as fronteiras do Egito. A Ordem dos Músicos Egípcios emitiu um comunicado em que o definia como “um dos mais proeminentes pioneiros da música moderna”, e o cantor Amr Diab publicou uma fotografia em que beija a testa do mentor, acompanhada de uma mensagem sobre o “legado artístico imenso” que ajudou a formar a consciência de gerações. Em Beirute, o jornal An-Nahar recordou o homem que “mudou os traços da canção árabe”, enquanto observadores no Magrebe notavam que a sua influência se infiltrara nas playlists de todo o norte de África muito antes de o termo “world music” existir. Shenouda recebera em 2023 o Prémio de Apreciação do Estado Egípcio, mas o reconhecimento que mais o comovia, confessara em entrevistas, era ver as suas canções cantadas em coro por públicos que nunca tinham posto os pés no Egito.
Quase em simultâneo, do outro lado do Atlântico, a cena teatral brasileira perdia um dos seus construtores mais discretos e inventivos. No domingo, João Sanches, dramaturgo, encenador e professor da Universidade Federal da Bahia, morreu aos 47 anos, por causas não reveladas. A Fundação Gregório de Mattos, em Salvador, divulgou uma nota em que o descrevia como “referência das artes cénicas baianas”, sublinhando uma trajetória “marcada pela excelência artística, pela inovação e pela dedicação à formação de novas gerações”. Sanches assinou montagens que se tornaram marcos do teatro na Bahia, como “Boca a Boca – Um Solo para Gregório” e “Eu te Amo Mesmo Assim”, e conquistou três Prémios Braskem de Teatro. O ator Ricardo Bittencourt, que protagonizou o seu solo sobre Gregório de Mattos, confessou-se “perplexo e em choque”, definindo o encenador como “terrivelmente inteligente”. Maria Marighella, ex-presidente da Funarte, escreveu que seria preciso “inventar palavras” para dar forma ao sentimento da perda e evocou o “sorriso luminoso” do amigo.
Separados por um oceano e por tradições artísticas distintas, Shenouda e Sanches partilharam, neste fim de semana, a mesma condição de artesãos de uma modernidade enraizada. O egípcio deu à canção popular a eletricidade que a projetou para além do Nilo; o baiano deu ao texto clássico a fisicalidade que o tornou contemporâneo. Em Riade, naquela noite de tributo, Shenouda ouviu a sua música devolvida por uma multidão que cantava em árabe egípcio como se fosse sua. Em Salvador, o silêncio que se seguiu à notícia da morte de Sanches foi preenchido por uma frase repetida nas redes: “Que o teu sorriso te guie”. Dois silêncios, duas geografias, uma mesma certeza de que certas obras só se completam quando a última nota ou a última fala se extinguem na memória de quem as recebeu.
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| Imprensa do Golfo árabe | +0.60 | aligned |
O Egito chora a perda de um filho ilustre que moldou sua identidade musical.
Uma aura de patrimônio cultural é criada através do uso de linguagem emocional e referências a instituições oficiais.
O mundo árabe perde um mentor que lançou as carreiras de muitas estrelas.
Sua figura é universalizada ao apresentá-lo como um 'padrinho' das estrelas, estendendo sua influência além das fronteiras egípcias.
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