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Mídia e Entretenimentosábado, 25 de julho de 2026

Do medo de voar ao palco em chamas: como a música pop serve de refúgio e reinvenção

Histórias de ouvintes e artistas revelam que o pop pode acalmar fobias, processar o luto ou desafiar as expectativas do envelhecimento – sempre com humor e autenticidade.

Eram três horas de choro incontrolável antes de embarcar. Debbie Adamson, 67 anos, moradora de Southampton, no Reino Unido, passara 17 anos longe dos aviões após um voo turbulento de Budapeste. No ano passado, para celebrar as bodas de 40 anos de casamento em Santorini, decidiu enfrentar o pânico. A bordo, fechou os olhos na decolagem, agarrou-se ao assento – e acionou uma playlist especial do BTS. As vozes de RM, Jin e Jimin funcionaram como ansiolítico: “Criei uma lista à prova de balas, com todas as músicas que amo, para ter a certeza de que continuaria a ouvir”, contou à imprensa britânica. Ao aterrar, a fobia não desaparecera, mas aprendera a racionalizar: “Permiti a mim mesma não ter medo”. Se uma fã encontra na música alheia um andaime emocional, o que dizer dos próprios criadores quando a vida os desafia?

Em conversa com a rádio pública australiana, a cantautora britânica Beth Orton, 55 anos, confessou que o seu novo álbum, The Ground Above, nasceu do luto e da urgência: uma amiga guardava as melhores roupas no armário à espera de uma ocasião especial e morreu antes de usá-las. “Mesmo se te atrapalhares, mesmo se fores uma confusão, podes viver com dignidade como és”, afirmou. Orton perdeu o pai aos 11 anos e a mãe para o cancro; lidou com a doença de Crohn e com dependências. Olhando para trás, para o disco Trailer Park, que agora faz 30 anos, disse ter uma relação difícil com a jovem que o compôs. “Tenho muito orgulho nela, mas há uma parte de mim que só quer seguir em frente.” O novo trabalho, envolto em orquestrações atmosféricas, ecoa a mesma lição que Debbie Adamson aprendeu a 10 mil metros de altitude: habitar o presente antes que ele acabe.

Na Suécia, a imprensa musical descreve o mais recente gesto de Charli xcx como um incêndio deliberado. Depois de o álbum Brat e a sua estética verde-limão se tornarem um fenómeno pop planetário, a artista de 33 anos sentiu-se obrigada a “queimar” a era. O novo disco, Music, fashion, film, troca a devassidão dançante por um preto e branco grave, estampado pelos rostos de John Cale, Marc Jacobs e Martin Scorsese. Em SS26, canta uma passerelle que desce até ao inferno; em No One Lasts Forever, o cineasta David Cronenberg sussurra “ninguém dura para sempre, estão mortos, desapareceram”. Críticos suecos notam que o álbum oscila entre o niilismo e o humor corrosivo, e que o génio cómico de Charli ressurge em faixas como Wink wink, onde graceja: “Talvez eu tenha dormido com o teu pai. Estou a brincar, só digo isso para causar efeito”. A mesma ironia que a levou, no videoclipe de 2007, a cantar que o dancefloor está morto.

Do outro lado do Atlântico, outra forma de resistência ganha corpo. A revista norte-americana Time assinala que Cher, aos 80 anos, representa uma “longevidade pela autodefinição”. Juntamente com Dolly Parton, Barbra Streisand e Dionne Warwick, todas octogenárias, foi criticada pela sua ambição desmedida, pela teatralidade, pelo excesso – e transformou essas mesmas características em assinatura. Cher ostentou vestidos transparentes de Bob Mackie, enfrentou a censura da MTV com um body cavado aos 43 anos e declarou: “Se quiser pôr os meus seios nas costas, é problema meu”. Para observadores nos Estados Unidos, a sua recusa em tornar-se mais palatável com a idade é um triunfo da presença sobre a efemeridade, um espectáculo que não esconde mas revela.

Assim, da passageira ansiosa que se agarra a um grupo de K-pop à diva que transforma o exagero em armadura, a música pop contemporânea traça um arco imprevisto: o de que o palco, as playlists e as canções não são fuga, mas ferramentas para negociar o medo, o luto, o ridículo e o tempo. Como Charli xcx canta em Rock music, talvez a saída seja apenas dançar – nem que seja por uns minutos, nem que seja no vazio.

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sábado, 25 de julho de 2026

Do medo de voar ao palco em chamas: como a música pop serve de refúgio e reinvenção

Histórias de ouvintes e artistas revelam que o pop pode acalmar fobias, processar o luto ou desafiar as expectativas do envelhecimento – sempre com humor e autenticidade.

Eram três horas de choro incontrolável antes de embarcar. Debbie Adamson, 67 anos, moradora de Southampton, no Reino Unido, passara 17 anos longe dos aviões após um voo turbulento de Budapeste. No ano passado, para celebrar as bodas de 40 anos de casamento em Santorini, decidiu enfrentar o pânico. A bordo, fechou os olhos na decolagem, agarrou-se ao assento – e acionou uma playlist especial do BTS. As vozes de RM, Jin e Jimin funcionaram como ansiolítico: “Criei uma lista à prova de balas, com todas as músicas que amo, para ter a certeza de que continuaria a ouvir”, contou à imprensa britânica. Ao aterrar, a fobia não desaparecera, mas aprendera a racionalizar: “Permiti a mim mesma não ter medo”. Se uma fã encontra na música alheia um andaime emocional, o que dizer dos próprios criadores quando a vida os desafia?

Em conversa com a rádio pública australiana, a cantautora britânica Beth Orton, 55 anos, confessou que o seu novo álbum, The Ground Above, nasceu do luto e da urgência: uma amiga guardava as melhores roupas no armário à espera de uma ocasião especial e morreu antes de usá-las. “Mesmo se te atrapalhares, mesmo se fores uma confusão, podes viver com dignidade como és”, afirmou. Orton perdeu o pai aos 11 anos e a mãe para o cancro; lidou com a doença de Crohn e com dependências. Olhando para trás, para o disco Trailer Park, que agora faz 30 anos, disse ter uma relação difícil com a jovem que o compôs. “Tenho muito orgulho nela, mas há uma parte de mim que só quer seguir em frente.” O novo trabalho, envolto em orquestrações atmosféricas, ecoa a mesma lição que Debbie Adamson aprendeu a 10 mil metros de altitude: habitar o presente antes que ele acabe.

Na Suécia, a imprensa musical descreve o mais recente gesto de Charli xcx como um incêndio deliberado. Depois de o álbum Brat e a sua estética verde-limão se tornarem um fenómeno pop planetário, a artista de 33 anos sentiu-se obrigada a “queimar” a era. O novo disco, Music, fashion, film, troca a devassidão dançante por um preto e branco grave, estampado pelos rostos de John Cale, Marc Jacobs e Martin Scorsese. Em SS26, canta uma passerelle que desce até ao inferno; em No One Lasts Forever, o cineasta David Cronenberg sussurra “ninguém dura para sempre, estão mortos, desapareceram”. Críticos suecos notam que o álbum oscila entre o niilismo e o humor corrosivo, e que o génio cómico de Charli ressurge em faixas como Wink wink, onde graceja: “Talvez eu tenha dormido com o teu pai. Estou a brincar, só digo isso para causar efeito”. A mesma ironia que a levou, no videoclipe de 2007, a cantar que o dancefloor está morto.

Do outro lado do Atlântico, outra forma de resistência ganha corpo. A revista norte-americana Time assinala que Cher, aos 80 anos, representa uma “longevidade pela autodefinição”. Juntamente com Dolly Parton, Barbra Streisand e Dionne Warwick, todas octogenárias, foi criticada pela sua ambição desmedida, pela teatralidade, pelo excesso – e transformou essas mesmas características em assinatura. Cher ostentou vestidos transparentes de Bob Mackie, enfrentou a censura da MTV com um body cavado aos 43 anos e declarou: “Se quiser pôr os meus seios nas costas, é problema meu”. Para observadores nos Estados Unidos, a sua recusa em tornar-se mais palatável com a idade é um triunfo da presença sobre a efemeridade, um espectáculo que não esconde mas revela.

Assim, da passageira ansiosa que se agarra a um grupo de K-pop à diva que transforma o exagero em armadura, a música pop contemporânea traça um arco imprevisto: o de que o palco, as playlists e as canções não são fuga, mas ferramentas para negociar o medo, o luto, o ridículo e o tempo. Como Charli xcx canta em Rock music, talvez a saída seja apenas dançar – nem que seja por uns minutos, nem que seja no vazio.

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